A perda de um bebê

Perda de um bebê

Engravidei da Valentina sem me esforçar, sem planejar. Engravidei da Isabela no primeiro mês oficial de tentativas. Eu nunca tinha passado por uma perda gestacional ou por uma gravidez que não evoluiu. Até agora.
Eu relutei se contaria isso aqui, ou se guardaria para os mais próximos que já sabiam da notícia. Mas eu resolvi falar. Não para ter atenção, mas para que as pessoas que já passaram por isso se sentissem  acolhida. E porque eu acho que esse veículo de comunicação deve ser usado para o bem. É minha obrigação. Eu já disse várias vezes, “eu imagino o que você deve estar sentindo”. Na verdade, eu não imaginava não. É inimaginável. É um buraco no peito. Meu bebê, que eu sei que ainda não era de fato um bebê, mas para mim já era não foi planejado. Eu torci para que o primeiro exame desse negativo e agora lamento por isso. Meu bebê ainda não tinha batimentos cardíacos, ele ainda nem tinha um coração. Mas já tinha possíveis nomes, ele já tinha um rosto (secretamente eu torcia para que dessa vez se parecesse comigo). Quem sabe teria meus olhos, meus sorriso? Eu achava que seria um menino dessa vez, mas a essa altura pouco importava. Meu bebê já tinha uma história, mas ainda era só um positivo em um papel. Meu bebê já tinha sido beijado pelas irmãs, nunca uma gravidez minha tinha tido esse fim, e eu não medi os riscos de se contar para uma criança de três anos que tinha um bebê na minha barriga. E agora eu simplesmente não sei o que fazer com essa informação. Eu achava que imaginava o que uma mulher sentia, mas eu não imaginava não… A sensação de defectibilidade, de impotência, de incapacidade são inenarráveis. Meu bebê tinha me escolhido para ser a sua casa, e eu não consegui trazê-lo à vida. Eu sei, eu sei… eu sei das estatísticas. Sei que é normal acontecerem 20% das gravidezes iniciais, é normal quando não é com você. Quando é com você, você não consegue achar isso normal. Foi porque eu peguei a Valentina no colo? Foi porque eu recolhi aquele brinquedo? Foi porque eu torci pelo negativo? São perguntas que eu sei que são irracionais, mas giram na minha cabeça. Hoje meu coração está em luto porque eu sei que meu bebê que nasceria em fevereiro, em um mês chuvoso não vai nascer mais. Em breve eu planejava contar para vocês que eu não seria mais mamãe duas vezes e que essa questão de nome pouco importava. Mas é só um desabafo, de alguém que utiliza palavras para aliviar dores da alma. Eu escrevo porque eu fico mais leve, eu escrevo enquanto sinto o gosto salgado das lágrimas. Eu escrevo porque eu sei que posso ajudar alguém que está passando ou passou por esse momento. Escrevo também para que todos que chegarem até o fim dessa leitura jamais menosprezem a dor de uma mulher que perde um bebê ou que tiveram uma gravidez que não evoluiu como dizem os médicos. Não importa quanto tempo ela esteve grávida, foi o suficiente para amar aquele ser que ainda não existia para os outros, mas já existia para ela.

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