Adaptação escolar: uma adaptação às avessas

Adaptação escolar e as voltas que a vida dá!

Na minha vida de mãe de primeira viagem , algumas coisas foram mais difíceis pra mim. Entre elas, o desmame, o desfralde e o período de adaptação escolar. Se você parar para refletir, todas essas dificuldades são relacionadas com a separação da mãe e do bebê, um corte no cordão umbilical invisível que está sempre nos acompanhando e vai se cortado um pouco a cada dia desde que o bebê nasce.

Já falei do desfralde, hoje vou falar da adaptação escolar.

Valentina entrou na escola em março, ela estava com 2 anos e 2 meses. Já estava pedindo regularmente para usar o troninho. Minha intenção nunca foi colocá-la na escola com essa idade, mas foi a necessidade dela que pediu. Eu estava com 7 meses de gravidez, com uma escoliose que me deixava incapacitada, sentia muita dor. Eu não conseguia brincar ou realizar qualquer atividade com ela. Sempre fui uma mãe muito presente e antes íamos a praças, clubes, cinema, etc. Mas eu não estava conseguindo e percebi que ela estava ficando muito entediada, estressada e passando tempo demais assistindo desenhos e usando o tablet. Além disso, entre nós havia uma simbiose fortíssima e eu temia que ela sofresse muito com a chegada da irmã. Queria que ela tivesse contato com outras crianças e que quando a Isabela nascesse ela tivesse outras atividades para entretê-la. Sem contar que, quando a Isabela nascesse eu queria ter algumas horinhas só nossas, afinal, Valentina teve a mamãe aqui exclusiva por mais de dois anos, era justo, e necessário que a Isabela também tivesse.

Acontece que eu não esperava que fosse tão difícil. Foi um período muito difícil pra mim mesmo… Vou explicar porque a adaptação escolar aqui foi às avessas.

Inicialmente Valentina foi muito feliz pra escola, ela já se comunicava muito bem e não queria vir embora. Só que a Valentina tem esse comportamento, avança uma casa e volta duas. No quarto dia ela já começou a falar que queria que eu fosse com ela. No dia seguinte, na sexta-feira já foi contrariada. Na segunda foi insatisfeita, mas foi. Em duas horas me ligaram da escola porque ela estava chorando. Cheguei na escola ela estava aos prantos, soluçando…choro ao lembrar. Conversei com ela e ela disse que queria ficar comigo. A coordenadora é amiga da família, além disso a Valentina já falava com muita coerência, então eu saberia se algo tivesse acontecido. Eu já tinha lido sobre crianças que recusam a escola depois que “cai a ficha” e sabia que essa era a adaptação mais difícil.

Pensei muito em desistir. Me senti culpada. Como se estivesse colocando ela na escola contra a vontade dela por necessidades minhas. Esqueci que eu era psicóloga e que já havia feito uma análise de suas necessidades. O que acontece é que a Valentina foi uma criança super protegida. Ela sempre me teve a sua disposição, criação com apego sabe? Minha chicletinha. Tinha todos os brinquedos que queria, não precisava dividir com ninguém, tinha todas as coisas que gostava por perto, ou seja, sua vidinha não tinha nenhuma frustração. Então, é claro que ir para uma escolinha não seria um mar de rosas. Conviver em sociedade não é fácil para ninguém, nem mesmo para as crianças.

Conversei com a coordenadora, e ela foi tão querida comigo! Me deu não só amparo profissional como também emocional. Eu estava no final da gravidez, achando que não ia dar conta de duas. Eu estava um caco e ela me ajudou a juntar os pedaços. Ela me pediu um tempo e eu dei. Tinha prometido a mim mesma que se ela não se adaptasse até o nascimento da Isabela eu a tiraria da escola.

Gradualmente Valentina começou a amar a escola! Em passos lentos. Mas finalmente, começou a gostar e até pedia pra ir nos fins de semana. Aprendeu muito, não só em termos cognitivos mas também emocionais e sociais. Mas como nada é perfeito, adquiriu alguns comportamentos regredidos, como falar errado (trocava o r pelo l) e conversa às vezes em um tom extremamente irritante.

Mas a minha menininha, hoje, chora quando não pode ir a escola! Já a vi de longe, e vejo como ela é feliz lá. Desconfio que mais feliz do que é em casa. Canta na rodinha, ouve historinhas, brinca de boneca, bicicletinha… E isso rodeada de gente! Ela adora!! Hoje, custo a acreditar quando lembro de como ela chorava. Seu desespero ao me ver saindo da escola, seu soluço quando eu ia buscá-la. Durou quase dois meses!! Eu chorei tanto, sofri tanto… Vejo que passamos por esse momento com muita cumplicidade!

Se você está aqui porque seu filho está em adaptação escolar. Acredite, eu sei como você se sente! Mas tenha a certeza de que como todas as fases essa também passará!

Esse texto eu escrevi no seu primeiro dia de aula, achei bacana compartilhar para que vocês pudessem entender minha surpresa quando ela não quis mais ir à escola:

“Por 2 anos e 2 meses foi só ela e eu. Suas manhãs e suas tardes foram minhas. Suas histórias, suas sonecas, sua referência… seu chamado foi por mim. Agora, os passos dela irão aonde eu não posso ver e seu mundo vai ser muito maior do que o meu. Era o que ela queria, e mais do que isso… era o que ela precisava. Eu que pensava que esse dia iria demorar pra chegar. Sua necessidade de pessoas não me deixou esperar. Que orgulho da minha menininha!! Não chorou, não quis ir embora pra casa, olha pra mim e diz que já cresceu. Quem está em adaptação sou eu!”

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