Birras: como lidar com elas?

Birras

Por

Carolina Faria Arantes

CRP 34041/04

Mestre em Psicologia da Saúde – Processos Cognitivos / UFU

Especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental / UFU

Pesquisadora na área da Prevenção e Tratamento de crianças, adolescentes e orientação de pais.

Psicoterapeuta, professora e supervisora no Instituto Integrare – Uberlândia/MG

Contato: carolfariaarantes@gmail.com ou carolina@integraretcc.com.br

Site: www.psicologauberlandia.com

Página Facebook: Psicóloga Carolina Arantes

Instagram: @psico.carolina.arantes

Olá, pessoal! Hoje quero falar para vocês sobre as famosas (e desconcertantes) birras! Elas certamente estão entre os comportamentos da criança que mais desestabilizam os pais, deixando-os sem saber como agir. Uma evidência disso é que este foi o tema mais sugerido entre as seguidoras do Instagram. Por isso, quero conversar com vocês sobre os motivos das birras e quais as maneiras mais eficazes de lidar com elas.

A birra nada mais é do que a luta da criança para se livrar de uma situação ruim e/ou conseguir o que deseja. A criança “dá birra” quando se sente frustrada. A frustração vem quando alguma coisa impede que nossa vontade aconteça. Digo “nossa” por ser algo que acontece com todo ser humano, não é exclusividade das crianças. Logo, uma criança não ter o brinquedo que deseja é frustrante; ter que parar de brincar para tomar banho ou dormir é frustrante; ter que tomar remédio e sentir aquele gosto horrível na boca é frustrante. E quando a frustração é experimentada, vem o choro, o grito, a luta.

A criança ainda não tem maturidade cerebral e nem experiência de vida suficiente que a faça saber que ter seu desejo impedido não é o fim do mundo (muitas vezes nem nós adultos sabemos disso). É através das experiências que a criança aprende que nem sempre se sentirá feliz e que isso é normal. À medida que você vai expondo seu filho aos “nãos” (quando for preciso, claro), menor será o seu sofrimento em uma próxima situação frustrante. Isso é o que chamamos de tolerância à frustração!

Nós não fazemos tudo o que temos vontade porque sabemos que nossos comportamentos têm consequências. As consequências do comportamento influenciam diretamente na probabilidade do mesmo se repetir no futuro ou não. Isto é, se eu me comporto de determinada maneira e consigo algo bom, é provável que eu repita esse comportamento no futuro. Se através desse comportamento eu tenho em troca algo ruim, a tendência será não repeti-lo mais. A criança precisa aprender isso desde cedo e isso não significa adestrar seu filho. Significa prepará-lo para a vida e ensiná-lo a ser uma criança agradável (o que influenciará positivamente em sua vida social), responsável e muito mais tranquila.

Abaixo, algumas medidas que podem ajudá-los a agir no momento da birra e a diminuir sua frequência (lembrando que estou considerando que o motivo do comportamento da criança é a intolerância à frustração):

  • Meu filho começou a dar um show no meio do supermercado! O que fazer?

Ignore! A medida mais eficaz para eliminar um comportamento indesejado é ignorá-lo. Isso mesmo, não dar atenção! Nada é mais gratificante para o ser humano do que a atenção. Se você para o que está fazendo para ouvir seu filho, ou até mesmo para brigar com ele, isso já será algo que ele estará ganhando através do seu escândalo e, como disse anteriormente, a tendência será manter o comportamento. Então, o mais adequado a se fazer no momento da birra é ignorar (é claro que você deve se certificar se isso não terá algum tipo de risco). Continue fazendo o que está fazendo, não dê atenção ao comportamento inadequado. Mostre para ele que daquele jeito não se ganha nada, nem sequer a sua atenção.

 

  • Mas se eu o ignorar ele não vai fazer ainda mais escândalo?

Sim, ele fará. E eu acredito que já tenham te preparado que pai e mãe passam vergonha. Não há dica que impeça isso! De fato, quando um comportamento é ignorado, o indivíduo tende a emiti-lo com ainda mais intensidade. E é extremamente importante que os pais não cedam! Se você ceder, a tendência é que da próxima vez ele já inicie o “show” na intensidade mais alta, o que complicará ainda mais as coisas! Portanto, aguente firme e não dê a ele o que ele quer.

  • E quando não for possível somente ignorá-lo e esperar que ele pare com o escândalo?

Infelizmente, não é sempre que conseguimos o ideal. Nesses casos, contenha a criança. Retire do local se for preciso; pegue-a e impeça que ela quebre coisas, que machuque os outros ou a si mesma. Após ter retirado a criança do ambiente, explique objetivamente porque seu comportamento não é correto e dê a consequência.

 

  • Explique as regras para a criança, apresente as consequências. De preferência antes de sair de casa.

Não podemos cobrar da criança um comportamento adequado se não deixarmos claro para ela o que esperamos. Seria como jogar um jogo sem saber as regras. Então, antes de sair de casa explique para a criança como serão as coisas, como você espera que ela se comporte e como não quer que ela se comporte. Apresente as consequências do comportamento desejado e do comportamento indesejado:

Comportamento desejado: Ele deve ser recompensado por algo que seja agradável para a criança, por exemplo: “Nós vamos ao casamento e você me deixará muito feliz se obedecer* a mamãe e o papai. Podemos até tomar um sorvete amanhã!” – Nesse exemplo, o simples fato de deixar a mãe feliz já é algo recompensador. E ela ainda está oferecendo um sorvete!

Comportamento indesejado: Ele deve ter como consequência algo desagradável para a criança, por exemplo: “Filho, na última vez que fomos a um casamento nós ficamos muito chateados com a forma que você agiu, pois não nos obedeceu*. Agora, esperamos que você se comporte diferente. Se você desobedecer*, não iremos ao clube amanhã”.

*É importante que você defina claramente para a criança o que é “obedecer”, “desobedecer”, “bom comportamento”.

**É essencial que a regra seja cumprida! Portanto, não faça promoções e ameaças que não pode cumprir! Dê consequências importantes, porém viáveis.

  • Respeite o sentimento da criança

Não ter o que desejamos é ruim! Sabemos muito bem disso. Nós também ficamos com raiva e tristes quando somos frustrados. Por que esperar que seu filho não fique? Não é o sentimento do seu filho que deve ser eliminado, mas sim a forma inadequada de manifestar a emoção. A criança pode chorar, pode reclamar, pode ficar insatisfeita, brava, irritada, afinal de contas, ela é um ser humano. O que ela não pode é gritar, xingar, agredir, desrespeitar. Portanto, deixe isso claro para seu filho. Fale para ele que você sabe o quanto é ruim sentir aquilo, mas que infelizmente não tem jeito. É saudável que ele aprenda que pode sentir e expressar suas emoções.

  • Seja firme e carinhoso!

Ser firme não é ser agressivo. Ser carinhoso e compreensivo não é ser passivo. Ser firme é ser claro, determinado, tranquilo, confiante. Os pais firmes sabem o que estão falando, têm certeza de que aquilo é o melhor e que é daquela forma que tem que ser. Eles transmitem isso para a criança. Dessa forma, os filhos aprendem que o que a mãe e o pai dizem é para valer, mas sabem que não serão tratados com humilhação e insultos. Ao abordar seu filho, abaixe-se, pegue em seus braços firmemente (sem força), olhe dentro dos seus olhos e diga, com firmeza e tranquilidade, o que você tem para dizer.

  • Dê o exemplo!

Nenhum método de ensino é mais eficaz do que o exemplo! Se você não tolera frustração, se grita, bate a porta, xinga quando algo desagradável te acontece, não espere que seu filho haja diferente. Portanto, cuide também de você!

  • Não bata!

Isso não é uma insistência boba, de quem acha que criança é livre para fazer o que quer e não deve ter seus maus comportamentos punidos. Acredito que tudo que escrevi até aqui mostra exatamente o contrário. O comportamento inadequado da criança deve sim ser punido, mas punir não é sinônimo de bater! O castigo é punição, a bronca é punição. A criança é um ser humano capaz de entender tudo o que precisa para se comportar de maneira adequada. Bater é desnecessário! Um animal é capaz de aprender sem apanhar, por que uma criança não seria? Se o seu objetivo é ensinar seu filho a se comportar bem e ter um ambiente harmônico, posso dizer com toda certeza que bater não é uma opção. Quando você se comporta de determinada maneira, você está permitindo que seu filho também se comporte assim. Portanto, ao bater em uma criança você está mostrando a ela que se bate nos outros, que a agressão física é uma opção de comportamento. Logo, quando ela se sentir frustrada poderá lançar mão de agressão física com você e com outras crianças. Bater não é método de ensino! Bater é uma forma dos adultos descontarem sua raiva!

Espero que essas orientações lhes ajudem a lidar mais confiantemente diante dessas situações tão embaraçosas que são as birras de nossas crianças! Educar não é fácil e exige paciência e tolerância. Paciência para parar, pensar e fazer o que é o certo e tolerância para suportar o sofrimento do filho diante de uma frustração. Não é fácil ver um filho chorar e, muitas vezes, pode parecer mais simples (para ele e para você) dar logo o que ele quer. Porém, acredite, isso é um tiro no pé! Ele sofrerá muito mais se não aprender a tolerar insatisfações e desconfortos e talvez você não imagine o quanto será prejudicado (podemos falar sobre isso em outro post). Portanto, seja forte e se for necessário procure ajuda, mas eduque seu filho! Com amor e respeito tudo fica mais fácil, até mesmo sermos contrariados!

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