Crise da cegonha: como fica o relacionamento após os filhos?

Crise da cegonha: o que está acontecendo conosco?

Não podemos negar que existem inúmeras diferenças diferenças no funcionamento orgânico de homens homens e mulheres. Na minha adolescência li o livro Homens são de Marte, mulheres são de Vênus que me chamou muita atenção. Evidente que não podemos generalizar, mas diferenças cerebrais, neurológicos, hormonais e  comportamentais existem. Na época, ainda não mãe, não pude fazer as inferências que faço hoje. Que são puramente intuitivas, sem nenhum caráter científico. São apenas advindas da minha observação em meu relacionamento e nos relacionamentos que vejo de casais que tem filhos.

Quando estamos grávidas, a sensibilidade vem a tona. Ou estamos chorando tomadas por uma emoção que sequer conseguimos entender, ou estamos irritadas por algum motivo que depois de muito tempo percebemos que era besteira. É nessa hora que os desentendimentos entre o casal começam a aparecer. Se for um relacionamento que já estava frágil antes da gravidez, as chances de rompimento são grandes. É preciso muita paciência e perseverança, não somente do marido (como algumas mulheres pensam), mas também de nós mesmas. Lembro que uma simples brincadeira era interpretada por mim de forma muito literal. Me chamar de “bolinha” era algo que me deixava com os nervos em frangalhos! Olhar para o guarda-roupa e não ter o que vestir acabava com o meu dia. Esses comportamentos são facilmente interpretados pelos outros como fúteis, entretanto não podemos esquecer de toda as transformações que a mulher está vivenciando, os hormônios estrógeno e progesterona estão nas alturas para que possam preparar o corpo daquela mulher para a gravidez. Junte a isso o fato de o sono desse gestante está irregular, ela tem enjoos matinais (que quase nunca ficam só pela manhã), seu apetite está desenfreado e ela ainda lida com vários medos que em geral guarda a sete chaves.

Quando o bebê nasce, é comum que a essa puérpera dissocie a mãe da mulher. O novo corpo ainda em transformação, o novo papel ainda sendo aceito e internalizado e suas novas funções a distanciam a princípio da mulher que outrora foi. Isso é totalmente normal, mas nós as mulheres ditas “comuns” por vezes nos consideramos erradas por não seguirmos os padrões das outras mulheres que desfilam disposição, unhas e cabelos arrumados 1 mês após o parto. A não aceitação e a comparação com outras mães pode sim ser uma das raízes da depressão pós-parto. É preciso entender que independente do que diz as capas de revistas, até mesmo a evolução prepara essa puérpera para se resguardar para essa criança que nasceu. Os hormônios presentes no pós-parto conseguem inibir a libido. O médico ginecologista Ricardo Cabral, diz em seu artigo Sexualidade no pós-parto no site Rede Mães de Minas:

O certo é que muitas mulheres não têm interesse pelo sexo no 1º ou no 2º mês após o nascimento da criança.

Seria por uma ação do hormônio da lactação que é a prolactina? Provavelmente sim, já que esse hormônio é comprovadamente anti-líbido, anti-desejo sexual, e que, associado ao aumento desse hormônio, presente nesta condição, temos a diminuição do estrogênio, levando principalmente as mulheres que amamentam a uma dificuldade de lubrificação vaginal, que pode ocasionar desconforto no sexo. Isto pode acarretar a perda do desejo, por associar relação sexual à dor.

Para isso as mulheres que amamentam e têm pouca lubrificação vaginal podem fazer uso de algum lubrificante vaginal à base de solução aquosa ou hormônios de aplicação na vagina prescritos pelo médico.

Passado esse tempo de puérperio, que pode ser maior ou menos dependendo da mulher e do relacionamento, as questões não são mais hormonais. Estar disposta e sexualmente interessada depois de um dia cansativo fisicamente e mental é uma missão. Não podemos esquecer ainda que muitas mulheres enfrentam mais de uma jornada de trabalho e que por muitas vezes a responsabilidade de cuidar dos filhos são exclusivamente delas.

Outro ponto relevante, é que a mulher em geral não distingue o pai do homem, cada vez que ela vê o homem sendo pai, ela o amo um pouco mais.Quando ela percebe uma distanciação desse pai, ou acredita que ele não está se dedicando o suficiente para o relacionamento pai e filho, o relacionamento homem e mulher também sofre. O fato é que muitos homens não tem consciência disso, e até mesmo muitas vezes não nos atentamos para esses sentimentos.

Já não percebo essa ligação com o homem. Eles parecem distinguir bem a mãe da mulher. Não vejo um homem se sentindo mais próximo da mulher porque ele a vê como uma boa mãe. O que percebo é que os homens tendem a se ressentir dessa relação exclusiva e se sentem excluídos. Muitos homens cobram a vaidade dessa recém mãe e querem ter a mulher que tinham antes do bebê nascer.

Acontece, que isso é impossível. Depois que nos tornamos mães nunca mais seremos as mesmas. O que precisa existir sem dúvida é um equilíbrio, e com o tempo a mulher conseguir a junção desses dois papéis tão importantes na sua vida.

Essa divergência de interesses traz uma estatística preocupante, o índice de separações após a chegada dos filhos é alarmante. Essa situação é tão comum que especialistas a nomearam de “crise da cegonha”. Junte esses desentendimentos ao fato de que agora terão opiniões diversas sobre educação, religião e outros aspectos que não poderão ser divididos individualmente. Falo sobre isso no post sobre o casamento após os filhos.

A jornalista Denise de Almeida fez uma síntese do livro Casamento à Prova de Bebês, reescrevo na íntegra questões importantes que devem ser refletidas após a chegada dos filhos:

A maioria dos casais acaba enfrentando algumas – se não todas – das seguintes questões:

1. Nosso comportamento como pais. Aqueles instintos biologicamente programados que acabamos de mencionar e que nem desconfiávamos que existiam se manifestam imediatamente quando o bebê nasce. O “chip materno” da mulher é ativado e ela passa a apresentar um comportamento compulsivo. “Será que esse protetor solar é forte o bastante? Será que compramos bananas suficientes?” Já o primeiro instinto de um homem ao olhar o filho dentro do berço é o “pânico do provedor”: “Meu Deus, preciso dar um jeito de ganhar mais dinheiro.” Ela acha que ele nunca entende a importância das coisas. Ele fica se perguntando por que ela se transformou numa megera que quer controlar tudo.

2. A vida sexual pós-bebê. O impulso sexual dele não mudou. Ela quer “fechar a fábrica” enquanto cuida da cria. Para falar a verdade, nós três respiramos aliviadas quando descobrimos que não éramos as únicas com problemas de compatibilidade entre “oferta e demanda” no quesito sexo. Foi bom saber que, assim como aconteceu conosco, a libido da maioria das mulheres desapareceu depois que elas tiveram filhos. Para os maridos, entretanto, nada mudou. Ficamos surpresas ao saber como eles se sentem angustiados quando suas esposas os rejeitam várias vezes. Thomas, um dos homens com quem conversamos, disse: “É humilhante e doloroso ser rejeitado em seu momento mais vulnerável, quando você está nu. E se isso acontece três vezes seguidas, acaba com qualquer um.” Então, resolvemos perguntar a nossos maridos se era verdade. A resposta deles: “Definitivamente.”

3. A divisão das tarefas. Lavar a louça, lavar a roupa, preparar e dar comida para as crianças, trocar fraldas, guardar os brinquedos e ainda por cima não perder o emprego – todo dia é a mesma coisa. Não é surpreendente que os casais acabem brigando para saber quem faz o quê – ou melhor, para saber quem não está fazendo o quê. Começamos a fazer uma “contagem de pontos” e, acreditem, nesse jogo ninguém sai ganhando.

4. Pressões da família. Antes de termos filhos, as famílias de origem não interferem muito na vida do casal. Tudo muda depois que o bebê nasce. Nossos pais e sogros fazem de tudo para conseguir um pouquinho de tempo com o neto. Isso também se deve a uma determinação evolutiva: cada casal de avós deseja influenciar mais a criança para a posteridade. E muitas vezes nós mesmos os estimulamos. Queremos que nossa família tenha tanta influência (ou mais) sobre nossos filhos quanto a de nosso parceiro.

Por mais maravilhosos e prestativos que sejam os parentes, é um grande desafio equilibrar o tempo que passamos com eles e sua influência sobre nossos filhos.

5. Quem dorme até mais tarde ou dá uma caminhada no sábado de manhã? Depois que os bebês nascem, passamos a ter bem menos tempo para nós mesmos. Dedicamos a nossos filhos todo o tempo e a atenção que eles merecem, mas isso significa que teremos um dia cheio e, no final, estaremos completamente sem energia. Com muita frequência acabamos brigando para ver quem fica com aqueles preciosos minutinhos livres que restaram.

Quando não encontramos tempo para as atividades que recarregam nossas energias, ficamos estressados e as manias de nosso parceiro – antes tão “bonitinhas” – se tornam insuportáveis. Basta nos descuidarmos de nós mesmos um pouco que seja para que surjam diversos problemas no casamento.

6. O que aconteceu com a gente? Depois que os filhos nascem, ficamos tão ocupados que é fácil negligenciarmos o relacionamento. O casal já não tem mais tempo para “conversas profundas”. Em vez disso, é sempre “está na hora de preparar o lanche”. Quando o casal não consegue ficar junto, a relação pode acabar entrando no “piloto automático”. E o destino dessa viagem todos conhecemos: “Quem é você e o que está fazendo na minha cama?”

Finalizo esse texto lembrando que todo relacionamento precisa de cuidado e de dedicação. Os filhos serão crianças por pouco tempo, vale a pena encontrar juntos uma maneira de superar os desacertos para a união do casal e consequentemente da família. Em tempos que é mais fácil jogar algo fora do que consertar, casamentos mais do que nunca não podem ser vistos como descartáveis. Precisamos lembrar que nenhum relacionamento é feito apenas de bons momentos. Na verdade, as superações das crises  é o que fortalece o vínculo do casal. Conversem, ser amigo e gostar da presença do outro é sem nenhuma dúvida o principal alicerce de um relacionamento duradouro (a segunda é não esquecer de beijar na boca!).

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