Culpa: Quando nasce uma mãe, nasce a culpa

A culpa de todos os dias

Eu nunca fui alguém que carregasse culpa nas costas. Se passou, passou. Sempre pensava: “eu fui o melhor que eu poderia ser”. Talvez o meu melhor não tenha sido o suficiente para muitos, mas eu tentei e fiz o que podia. Isso em relacionamentos familiares, pessoais e até mesmo no campo profissional. Então eu fui mãe, minhas certezas abaladas e desde então carrego a culpa todos os dias.

Durante a gravidez, tudo tranquilo. Sem tomar refrigerante, café uma vez por dia, enxaqueca aguentei sozinha tomando apenas o remédio que nenhum efeito fazia. Quando a Valentina nasceu, seus primeiros dias me fizeram conhecer a chamada culpa. Por que não prestei mais atenção? Por que não li mais? Por que eu não sabia? A icterícia e hiperlactação me mostraram quão frágil eu era, mas mais do que isso, me mostraram que eu não tinha o controle de tudo. Na verdade, vi que eu não tinha controle de quase nada.

Passado o primeiro ano, aprendi a conviver com essa culpa. Aprendi a ser uma mãe possível. Já conseguia deixar a Valentina com minha sogra o dia todo e me divertir assistindo filme e comendo chocolate. Sem culpa! Aprendi a me perdoar e aceitar que não quero brincar todos os dias e tenho o direito de ficar irritada depois de ser acordada 10 vezes em uma noite.

Quanto tudo estava confortável, eu engravidei novamente e sai dessa zona de conforto. Meu sonho sempre foi ser mãe de duas, e para alcançar os nossos sonhos precisamos pisar no desconhecido. Mas obviamente nem tudo são flores e por mais que alguma mães tentem esconder e romantizar a maternidade, alguém precisa dizer isso para as novas mães. É verdade que elas não querem saber, mas sem dúvida saber da verdade abaixaria significativamente os índices de depressão pós-parto.

Quando a Isabela nasceu a culpa voltou mais forte do que nunca. Ter a Isabela tão pequenina no colo e olhar para a Valentina ainda tão carente de mim foi muito difícil. Um recém nascido precisa de cuidados constantes e por vezes me vi despedaçada por não poder fazer a Valentina dormir ou dar banho nela. O marido sempre presente, mas era a mim que ela queria.

Novamente o tempo foi passando, e dia após dia fui aprendendo a lidar com essa vida de mãe de duas, aceitando o fato de que não posso ser duas e que elas precisam esperar. Mais do que isso, considero que esperar é algo benéfico para ambas (e inclusive para mim). Vou aprendendo a lidar com as arestas, trabalhos mal acabados, sono sempre picado.

Mas hoje eu chorei. Chorei muito… um nó no estômago e uma tristeza profunda me fizeram sentar e chorar. Minhas mãos ficaram pesadas demais e minhas costas doíam. Era o peso da culpa mais uma vez pesando na minha alma de mãe. Isabela está acordando muito durante a noite e no período da manhã acabo dormindo até mais tarde com ela. Valentina vai para a escola no período da manhã e nem sequer acordei quando ela saiu. Meu marido chegou com os trabalhinhos dela ao voltar para o almoço e foi então que eu me lembrei: eu havia esquecido a reunião para entrega dos trabalhinhos e de sua apresentação. Não foi só porque eu não acordei, eu realmente esqueci.

Lembrei dos meus tempos da escola, quando minha mãe quase nunca ia às reuniões e como isso me entristecia. Chorei mais um pouco. Choro enquanto escrevo. Não foi somente a minha ausência a essa reunião, chorei todas as ausências que venho acumulado ao longo desses 7 meses.  A verdade é que não ir a reunião trouxe todos os sentimentos que eu ruminava dentro de mim. Sinto todos os dias que não estou sendo uma boa mãe para a Valentina e não adianta alguém dizer que estou fazendo o melhor que posso, não adianta nem mesmo eu repetir isso para mim. Sinto que o meu melhor poderia ser muito melhor. Há tempos tenho me culpado por todos os comportamentos taxados como inadequados como birras, gritos e escândalos para chamar atenção. Não é isso que uma mãe sempre faz? Atribuímos todos os comportamentos do filho a nós, enquanto sou mãe esqueço muito que sou psicóloga.

Valentina vai para escola de manhã, enquanto ela almoça dou papinha para a Isabela. Quando faço a Isabela dormir ela normalmente já está dormindo no sofá ou foi para o quarto sozinha. A experiência de fazê-las dormir juntas é sempre um fracasso, tanto nos cochilos da tarde quanto a noite. Ninguém dorme! À noite Isabela está dormindo comigo novamente porque está resfriada e como disse está acordando a noite toda. Isabela fica quase o dia todo no meu colo e sinto que por vezes sou um canguru. Muitas vezes Valentina me chama para brincar e não posso. Eu fico pensando sempre se todas as mães que tem mais de um filho sentem isso, ou se sou eu que sou muito fraca! Penso mesmo se todas as fotografias de ensaios com as crianças mais velhas e os bebês são reais. Será que só eu fico com medo da criança maior machucar o bebê?

Sinto uma avalanche de sentimentos. Às vezes quero que o tempo passe rápido (como no filme Click!) para que as duas possam ter necessidades parecidas, mas quando as vejo tão bebês quero parar o tempo para aproveitar um pouco mais. E quer saber? Me sinto culpada por querer acelerar o tempo, sabemos o que o filme Click nos mostra. (Se você não viu, assista!) Foi por isso que passei o último sábado com a Valentina sem a Isabela, percebi que ela precisava disso e eu também. Amamentei e deixei Leite Artificial para o pai dar, porque por mais que eu tenha muito leite a Isabela mama muito e não tem o suficiente para armazenar. E a culpa de dar LA para ela sabendo que a Valentina só bebeu LA com mais de 1 ano? Mas assim fiz. Acontece que ela não quis beber o leite e nosso passeio teve um prazo menor.

Veja bem, em nada essa culpa muda o fato de que minhas filhas são a minha vida. Não existe nada melhor do que a visão delas sorrindo. E eu também não me arrependo da diferença pequena de idade, sei que é uma fase e sei que vai passar rápido. Mas queria muito exteriorizar esses sentimentos, primeiro para tirá-los de mim, depois porque sei que outras mães sentem a mesma coisa.

Chego a conclusão que a culpa ainda irá me acompanhar por um bom tempo, talvez por toda a vida. Afinal, nunca poderemos estar em dois lugares ao mesmo tempo e só temos dois braços. Sentimento desnecessário, que nos atrapalha, nos imobiliza, só nos angustia e não nos leva a nenhum lugar. Mas alguém tem a receita para se livrar dele?

One thought on “Culpa: Quando nasce uma mãe, nasce a culpa

  1. Mônica

    Amei o seu post. Eu tenho duas filhas pequenas é bem isso mesmo!!! Sinceramente acho que a culpa nasce quando nos tornamos mãe e vai permanecer para o resto da vida.

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