Empatia na criança: como e por que desenvolvê-la?

Como e por que desenvolver a empatia na criança

Por

Carolina Faria Arantes

CRP 34041/04

Mestre em Psicologia da Saúde – Processos Cognitivos / UFU

Especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental / UFU

Pesquisadora na área da Prevenção e Tratamento de crianças, adolescentes e orientação de pais.

Psicoterapeuta, professora e supervisora no Instituto Integrare – Uberlândia/MG

Contato: carolfariaarantes@gmail.com ou carolina@integraretcc.com.br

Site: www.psicologauberlandia.com

Página Facebook: Psicóloga Carolina Arantes

Instagram: @psico.carolina.arantes

            Comumente confundido com simpatia, o tema do texto de hoje refere-se à habilidade de perceber e compreender o outro. Empatia não é a habilidade de se colocar no lugar de alguém, mas sim de viver temporariamente a sua vida, experimentando seus sentimentos e pensamentos. É compreender a pessoa a partir da perspectiva dela, e não da própria. A partir dos sinais emocionais do outro (expressão facial, postura corporal, tom de voz) e informações sobre a situação vivenciada, nós conseguimos experimentar a mesma emoção e adotar o ponto de vista da outra pessoa.

Por que desenvolver a empatia do meu filho?

A aprendizagem de habilidades empáticas beneficia a criança e sua família de diferentes maneiras. Estudos nacionais e internacionais apontam que “a empatia é um elemento essencial para o desenvolvimento das habilidades interpessoais e melhora na qualidade das relações” (Justo, Carvalho & Kristensen, 2014). A criança que se importa com o outro, que apresenta comportamentos de ajuda e cooperação é mais aceita socialmente, tem mais amigos, recebe mais ajuda, mais atenção, mais carinho. Tudo isso reflete positivamente na sua autoestima, pois ela percebe que é uma pessoa querida para os outros. Além disso, a empatia tem sido considerada por especialistas um fator de proteção de problemas de agressividade, isto é, quanto mais empática a criança for, menor a probabilidade de ela manifestar comportamentos agressivos (Pavarino, Prette & Prette, 2005).

O autocontrole, atenção a estímulos externos, reflexão sobre determinada situação, disposição para ouvir e solução de problemas também são habilidades que se desenvolvem quando a empatia é exercitada. A criança precisa controlar sua reação automática diante do comportamento do outro (autocontrole), tem que observar atentamente os sinais verbais e não verbais que retratam a situação da outra pessoa (atenção), pensar e imaginar como seria viver aquela situação (reflexão), ouvir o que o outro tem para lhe dizer sobre o que está pensando e sentindo (disposição para ouvir) e pensar em possíveis formas de ajudar a pessoa se sentir melhor (solução de problemas).

A criança é capaz de aprender a ter empatia?

Sim. Na verdade, a infância é a fase mais importante no processo de desenvolvimento da empatia. É claro que a aprendizagem de toda habilidade depende do desenvolvimento da criança em cada idade, mas pesquisas mostram que desde os seus primeiros dias de vida, o bebê já apresenta manifestações relativas à empatia. Segue um breve resumo de como a empatia é desenvolvida ao longo da infância, baseado no estudo de Pavarino, Prette e Prette (2005).

Primeiros dias de vida: É comum bebês ficarem perturbados quando escutam o choro de outro bebê. Este seria um indicador inato da empatia, a qual poderá ser desenvolvida posteriormente. Esta reação, embora seja um reflexo ao ambiente externo, ajuda o bebê a construir o conceito de que os outros existem e respondem ao ambiente de formas diferentes.

– Cinco meses: Por volta dessa idade, os bebês já são capazes de discriminações mais complexas, como expressões faciais de alegria, raiva, surpresa, etc.

– Primeiro ano: Nesta idade, os bebês já são capazes de experimentar o mesmo sentimento manifestado por outra pessoa e, um pouco mais tarde, eles começam a entender que o sofrimento não lhes pertence (embora não saibam o que fazer diante disso). Nessa fase as crianças já reagem de forma diferenciada à expressão facial de suas mães.

Segundo ano: Conseguem atribuir um significado às expressões emocionais das outras pessoas, assim como lançam mão de tentativas de consolá-las.

Terceiro ano: Nesta fase, a criança sabe que o seu comportamento é capaz de gerar um sentimento diferente no outro, ou seja, ela é capaz de supor que ao abraçar alguém, este pode deixar de se sentir triste e ficar feliz; ao bater em alguém, esta pessoa poderá deixar de se sentir tranquila e passar a sentir raiva. Porém, os comportamentos da criança neste período não são influenciados pela forma com que o outro irá se sentir, mas sim pelo próprio sentimento. Isto quer dizer que se sua vontade de bater no colega e se livrar da raiva for muito grande, ela irá fazê-lo mesmo sabendo que o outro ficará bravo.

– Quarto ano: Já são capazes de reconhecer e nomear corretamente as emoções básicas (tristeza, raiva, medo, alegria, surpresa, nojo) através das expressões faciais.

– Idade pré-escolar (até os 6 anos): A criança já é capaz de manifestar comportamentos pró-sociais cada vez mais complexos e alta sensibilidade em relação aos desejos e necessidade dos outros. Mesmo tendo este potencial, suas reações irão refletir a aprendizagem familiar, ou seja, o tipo de reação que seus pais costumam ter perante a expressão emocional dos outros.

O que os pais podem fazer para estimular o desenvolvimento da empatia do seu filho?

O desenvolvimento das habilidades empáticas é influenciado por variáveis genéticas e, principalmente, ambientais. Uma série de pesquisas tem mostrado que as relações parentais têm um peso muito grande no desenvolvimento da empatia do filho. Para ficar claro como os pais devem agir para colaborar com o desenvolvimento da empatia da criança, apresentarei abaixo as atitudes que ajudam e as que não ajudam nesse processo:

Ajudam Não ajudam
Limites – Pais que mostram claramente os limites para os seus filhos, que explicam o porquê das regras e de suas ações e quais as consequências que os comportamentos da criança terão para ela e para o outro. à Ao considerar a importância do filho compreender o porquê de uma regra, os pais estão sendo empáticos! Não dar instruções sobre como a criança deve se comportar e nem consequências para os seus comportamentos – Dessa forma, a criança não saberá como deve agir perante o outro e a importância dos efeitos de seus comportamentos sobre o outro não será evidenciada.
Interesse pelos sentimentos da criança / Compartilhar os próprios sentimentos – Perguntar como o filho está se sentindo diante de determinada situação e expressar sua emoção ensina para a criança que os sentimentos do outro são importantes. à Ao se interessar pelos sentimentos do filho, os pais estão sendo empáticos! Excesso de controle, rigidez e punição – Desrespeita a criança, não ensina que o outro é importante e que deve ser bem tratado. Mostra para a criança que seus sentimentos não têm importância e que ela deve obedecer às regras impostas, independente de qualquer coisa. Afasta a criança.
Liberdade para expressar emoções – respeitar o direito da criança de expressar seus sentimentos quando não concordam com alguma coisa. Isso não significa que os pais têm que ceder às vontades dos filhos. Uma coisa é obedecer, outra é gostar. A criança tem o direito de não se sentir feliz com uma regra (e expressar isso), mesmo que a obedeça. à Ao se interessar pelos sentimentos do filho e considerar importante a sua vontade/necessidade de expressão, os pais estão sendo empáticos! Negligência e Frieza emocional – Gera o distanciamento da criança, não estimula o interesse pelo outro. Compromete a autoestima e autoconfiança, o que irá atrapalhar a sua aproximação de outras pessoas.
Auxílio para solucionar problemas – Os pais ajudam os filhos a encontrar a melhor solução para um problema, sem dizer diretamente o que ele deve ou não fazer. Os pais analisam a situação-problema junto com a criança, considerando os seus sentimentos e, junto com a ela, pensam em formas possíveis de superar o obstáculo. à Ao tentar ajudar o filho, considerando seus desejos, sentimentos e objetivos, os pais estão sendo empáticos! Punição Física – Ensina que a violência e agressividade são formas de solucionar problemas e de se relacionar com os outros.
Demonstrações e trocas de carinho – Faz com que a criança sinta-se amada e que ela entenda que o outro é alguém que deve ser tratado de maneira especial. Estimula a expressão dos sentimentos. Ensina para a criança como ser carinhosa e agradável. à Ao ser carinhoso com o filho, os pais estão sendo empáticos!
Expressar emoções negativas de forma moderada – Não tem problema os pais demonstrarem seus sentimentos de sofrimento, desde que façam isso de uma forma que não desestabilize a criança. Na verdade isso é muito importante, pois colabora para a sensibilização da criança para o sofrimento alheio. à Ao demonstrar seu seus sentimentos, mesmo que negativos, os pais estão dando a oportunidade para que a criança seja empática!
Elogio Ao destacar os comportamentos e atributos positivos do filho, os pais estão sendo empáticos!

Notem que todas as atitudes que os pais precisam ter para estimular o desenvolvimento da empatia de seu filho envolvem ser empático. Em um mundo que nos estimula cada dia mais a pensar e agir tendo base somente nos nossos desejos, não é muito fácil ser empático e ensinar empatia. Porém, quando nós olhamos para as vantagens de um objetivo, ganhamos a força e motivação que precisamos para alcança-lo. Quase tudo que é bom é difícil de alcançar. Criar um filho feliz e saudável é uma dessas coisas que são muito boas, porém nada fáceis. O que eu sempre digo aos pais que eu oriento é que por mais difícil que seja mudar e colocar em prática essas estratégias saudáveis, ter um filho infeliz (e que faz os outros infelizes) é infinitamente pior.

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