Envelhecer. Acho que não sei envelhecer!

Sobre envelhecer

Olhei para o espelho e me senti velha. Não sei o que aconteceu, não parece que eu fui ficando velha, foi como se eu sentisse meus 28 anos de uma só vez. Vi que algumas rugas estão aparecendo e minha pele já não é tão firme como um dia foi. Sabe a expressão “De repente 30?” Acho que os 30 nunca são assim, de repente. Eles vão nos invadindo devagarinho, acho que começaram a chegar depois dos 25. Você deixa de ter os 20 e poucos anos tão aclamados pela sociedade e começa a ter 20 e tantos. O fato, é que os 30 não nos faz somente olhar para o corpo, faz olhar também para nossa vida, nos faz pesar as conquistas e as perdas que os anos nos trouxeram.

Dizem por aí, que os 30 agora são chamados de novos 20, mas ainda assim acho que eles sempre trarão muitas reflexões. Principalmente quando se é mãe. Penso se eu começaria a me sentir assim 28 anos e sem filhos, eu acho que não. Depois que tive filhas criei raízes e isso muda qualquer cenário. Acho que o processo de envelhecimento vai muito além do passar dos anos.

Nunca tinha pensado sobre envelhecer. Em um país onde a cultura valoriza sobretudo o corpo e que a boa forma não se refere à saúde, mas a um corpo impecável.  Nesse cenário, é impossível não se deixar abater quando pensamos em uma condição que deveria ser encarada de forma tão natural: envelhecer. Talvez eu não saiba envelhecer. Pensando nisso, digitei no google a palavra envelhecer e um artigo muito interessante no site Via Mulher surgiu, ela diz que as mulheres brasileiras não sabem envelhecer. Leia um trecho:

Mirian Goldenberg é doutora em antropologia e autora de diversos livros, inclusive um que trata das ‘coroas’ daqui. Ela descobriu que a cultura da juventude, da magreza e do corpo perfeito, veiculada massivamente pela mídia, obriga a brasileira a investir no corpo jovem e magro. Em outras culturas, o investimento em outros capitais é muito mais importante para a mulher.

“A partir dos dados da minha pesquisa comparativa com mulheres brasileiras e alemãs de mais de 50 anos, posso dizer as brasileiras não sabem envelhecer bem”, afirma. Na observação entre dois universos, as alemãs pareceram mais confortáveis com envelhecimento. “No Brasil, tenho observado um abismo enorme entre o poder objetivo, o poder real que elas conquistaram e a miséria subjetiva que aparece em seus discursos”. Essa miséria diz respeito a assuntos como gordura, flacidez, decadência do corpo, insônia, doença, medo, solidão, rejeição, abandono, vazio, falta, invisibilidade e aposentadoria.

Ao observar a aparência das alemãs e das brasileiras, ela percebeu que aqui as mulheres se parecem mais jovens e estão em melhor forma, mas o que sentimos é de desvalorização. “A discrepância entre a realidade objetiva e os sentimentos subjetivos das brasileiras me fez perceber que aqui o envelhecimento é um problema muito maior, o que pode explicar o enorme sacrifício que muitas fazem para parecer mais jovens, por meio do corpo, da roupa e do comportamento. Elas constroem seus discursos enfatizando as faltas que sentem, e não suas conquistas”.

Comparando os discursos, Mirian chegou a conclusões interessantes. No Brasil, segundo ela, se dá ênfase a decadência do corpo e a falta de homem é uma característica do discurso das brasileiras. “A ideia de falta, de invisibilidade e de aposentadoria só apareceu no discurso das brasileiras. As alemãs enfatizaram a riqueza do momento que estão vivendo, em termos profissionais, intelectuais e culturais”, diz.

As alemãs consideram os 51 anos um momento de grande realização e possibilidades, valorizam o trabalho, a saúde e a qualidade de vida que conquistaram. Acham ‘falta de dignidade’ uma mulher querer parecer mais jovem ou se preocupar em ‘ser sexy’, além de imaturidade e infantilidade incompatível com o esperado para uma mulher nesta faixa etária. “O corpo, para elas, não é tão importante, a aparência jovem não é valorizada e, sim, a realização profissional, a saúde e a qualidade de vida. Algumas me disseram que não compreendiam por que a mulher brasileira gosta de receber elogios e cantadas na rua. Uma delas me disse uma vez: ‘você mesma é que deve se sentir atraente e não precisa de ninguém para dizer se é ou não. É uma falta de dignidade ser tão dependente dos homens’”.

Questionada sobre o pânico do envelhecimento, Mirian diz que numa cultura onde o corpo é um capital – mas que ter um marido parece ser ainda mais importante ainda -, é muito difícil e quase dramático, envelhecer sozinha. “Mas aprendi, e continuo aprendendo, com mulheres como Leila Diniz, Simone de Beauvoir, minhas pesquisadas alemãs e agora as brasileiras, que é possível envelhecer com menos sofrimento, se valorizarmos e investirmos em outros capitais, e não apenas no capital físico ou no marital’”. (Todos os grifos são meus)

Um tapa de luva de pelica a perspectiva das alemãs, não? Comecei a pensar em mim. Que investimentos tenho feito enquanto mulher que sou? Há anos venho postergando um check-up completo, minha cabeça dói muito e acredito que está relacionada à adenoide, meus óculos já não conseguem suprir minha miopia e apesar de ter tido hipotiroidismo na gravidez não realizei exames depois que Isabela nasceu. Faz 4 anos que eu não realizo nenhuma atividade esportiva, não estudo mais e em geral só leio sobre maternidade.  Para completar, tenho uma alimentação péssima! Tem dias que eu passo com uma copo de leite! O corpo sente, o espírito também. Decidi que vou cuidar mais de mim. Aguarde cenas nos próximos capítulos!

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