Eu depois que me tornei mãe: quem sou eu?

Há três anos fui a um hospital ganhei uma cicatriz de uma cesariana e junto com ela um bebê. Naquele dia comecei um curso intensivo de como me tornar uma mãe. Eu tinha uma noção do que era quando estava grávida, mas só fui entender realmente o que era esse sentimento depois que minha primeira filha nasceu. Não conseguimos traduzir, nem mesmo nomear o que sentimos. Já disse eu te amo para tanta gente, mas nada se aproxima do amor que sinto agora. Na falta de outra expressão dizemos que amamos, mas sabemos que na verdade é algo que ultrapassa as palavras que conhecemos.

Tornar-se mãe é um processo um pouco mais demorado, e acredito que é um processo que nunca termina. A verdade, é que ninguém se torna mãe depois que vê duas listras em um palitinho, ou escuta o choro de um bebê pela primeira vez. Já aprendi a ser mãe de um bebê, estou aprendendo a ser mãe de uma criança, em breve terei que aprender a ser mãe de uma adolescente e assim sucessivamente. Ledo engano pensar que a aprendizagem termina depois que se tem o primeiro filho filho, ela recomeça quando um novo filho chega.  Recomeça não somente com aquela criança que chegou, mas também com a que já estava lá.

Meu corpo não é o mesmo, não sigo mais um padrão de beleza desejado por tantas mulheres. Estou muito longe de ter um corpo firme e perfeito. Mas isso, cirurgias plásticas e exercícios físicos resolveriam, certo? Mas o que posso fazer com a mudança interna que sofri? Como pode uma mulher ser a mesma depois que se torna mãe? Como pode um ser que foi gerado e cresceu dentro de mim nunca de fato ter sido meu? Alguém que senti mexer, que conhece meu cheiro melhor do que eu, mas que na verdade nunca foi e nem será eu?  Como posso ser a mesma sabendo que essa parte nunca mais estará tão próxima assim novamente? Quando olho para as meninas, sinto meu coração batendo fora de mim. E isso é de uma fragilidade imensurável. O meu controle sobre minhas filhas é muito limitado. A cada dia que passa elas irão a lugares que meus pés não serão bem vindos, irão ter preferências diferentes das minhas, irão conhecer lugares que eu nunca sonhei estar.  E conforme elas vão crescendo esse controle vai diminuindo, como se fosse uma corda se desfazendo dia após dia.

Quando lembro de minha vida antes delas, parece que não sou eu. Parece ser alguém que um dia eu conheci. Tem apenas três anos dos 28 da minha existência que sou mãe, mas o mais curioso, é que parece que eu sempre fui assim. Quando olho minhas fotos, lembro de minhas frases e dos conceitos que tinha, é como assistir um filme do qual eu não faço parte.

Eu não tenho mais uma alma leve, eu não ando despreocupada por aí, não tem nenhum segundo do meu dia que eu não pense no bem estar de minhas pequenas. Me preocupo com a quantidade de água que elas bebem, e não deixo de pensar se terá água no futuro para elas possam saciar sua sede. Eu tenho medos que antes não tinha, eu tenho medo de morrer, tenho medo dos insetos, tenho medo do futuro, tenho medo de tudo que eu não posso prever. Por outro lado, aprendi a encontrar uma coragem que não sabia que existia dentro de mim. Ter um filho muda tudo, muda suas prioridades, muda a sua vida. Faz um domingo parecer um dia qualquer sendo acordado às 6 horas da manhã. Faz uma segunda ficar espetacular, devido à aquela palavra nova aprendida, ou só por causa daquela gargalhada diferente. E principalmente, muda você.

Eu não continuei minha vida depois que a Valentina nasceu, eu renasci. Me ressignifiquei. O que eu achava que era certo, imutável, bonito e estável mudou. Eu, que me amava em primeiro lugar, percebi que sem pestanejar coloquei duas pessoas anos luz às minha necessidades. Se fosse somente com a Valentina seria algo relacionado a ela, mas não, dou minha vida por ambas, por isso percebo que é algo relacionado a mim; ao meu sentimento de mãe por elas. Falo muito mais nós do que eu. E prefiro ser assim.

Eu, em 2010. Quando não carregava nenhuma preocupação no olhar e era uma das pessoas mais egoístas que já conheci.

Eu, em 2010. Quando não carregava nenhuma preocupação no olhar e era uma das pessoas mais egoístas que já conheci.

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