Mãe que trabalha fora: como fica a vida?

Como é ser uma mãe que trabalha fora?

Preciso começar dizendo que não, não é fácil ser uma mãe que trabalha fora! Além disso vou falar a verdade que, para mim, nunca ninguém disse: nunca mais me senti a mesma profissional de antes! Como sentir-se a mesma profissional de antes se após o parto eu me sinto uma nova mulher? Minhas prioridades mudaram de uma forma drástica e com isso, todo um novo jeito de olhar a vida me foi construído.

Coisas tão valorosas e apreciadas por mim antes de engravidar, hoje não passam de detalhes, figurantes na minha nova vida de mãe, sim NOVA vida.

Ok, deu para entender que eu fiquei também bem mais filosófica pós nascimento da minha japinha e que eu passei a fazer muitos questionamentos (inclusive o de não retornar ao trabalho). Mas foi necessário retornar, e cá estou eu para contar um pouquinho de como está sendo.

Durante os três primeiros meses de licença maternidade eu fiquei extremamente focada no bebê, não conseguia pensar em qualquer outra coisa e, obviamente, não conseguia planejar qualquer vida além daquela (hoje revendo este momento, acredito ainda mais na teoria da extero-gestação, eu passei estes 3 meses literalmente gestando a Allegra fora do útero, e é exatamente o tempo que a teoria estima a duração da extero-gestaçao).

Enfim, passados estes três meses, comecei a entrar em contato com uma ansiedade extrema e uma grande inquietação ao pensar em voltar a trabalhar. Preciso dizer que minha rotina antes de ter uma filha sempre foi muito intensa. Sou psicóloga e trabalhava em período integral em uma escola e emendava um expediente em outro, dando tutoria aos alunos em suas casas, ou seja, eu tinha dois empregos: saia de casa antes das 7h00 e só voltava depois das 20h ou 21h. Como prosseguir com essa rotina? Com quem a japinha ficaria? Eu ficaria sem vê-la, pois estes horários fariam com que eu provavelmente saísse antes de ela acordar e voltasse quando ela estivesse dormindo. Fica claro aqui o motivo do que eu chamo de depressão pré retorno ao trabalho: eu entrei em parafusos, fiquei super deprimida, engordei tudo que havia perdido no pós parto, meu leite começou a diminuir e eu só pensava nisso. Eu tinha dois meses para curtir ao máximo aquela coisinha que era a nova razão do meu viver, e a sentença era de que eu teria que deixar de ver e acompanhar e cheirar e curtir aquele serzinho pequeno que me fazia tão feliz.

Foi então que nestes dois meses impus uma meta: encontrar um jeito de fazer com que minha rotina refletisse minha nova realidade, já que minha filha era minha nova prioridade ela tinha que estar contemplada em minha rotina. Neste meio tempo, troquei muitas ideias com uma grande amiga que também estava sentindo falta de investir seu tempo em algo que realmente lhe desse prazer, em dar novos ares e estabelecer novas metas para essa nossa vida tão maluca e corrida. Destes questionamentos nasceu então a Aurora Teodora  (Instagram @aurorateodora) Criamos juntas uma marca de roupa infantil que tem a nossa cara: roupinhas com cara de criança e uma pegada vintage, retrôzinha. Dediquei muito do meu restinho da licença maternidade para fazer a Aurora Teodora acontecer mas a realidade não era tão atraente, a Aurora Teodora só poderia substituir meus empregos quando esta estivesse consolidada e rendendo, financeiramente, o suficiente para que a troca ocorresse. No entanto, apenas de saber que estou investindo meu tempo em um projeto de mudança de vida, já me deu energia para o retorno ao trabalho.

Na escola em que trabalho reduzi meu expediente pela metade e continuei com as tutorias na casa dos alunos. O cenário para o retorno ao trabalho ficou um pouquinho menos assustador, mas, ainda assim, me dava pesadelos e eu não sabia se conseguiria.

Posterguei o retorno da licença maternidade o máximo que pude! Usando minhas férias e a licença amamentação, consegui voltar quando a Allegra completou 5 meses e meio. Ela ainda era muito pequena para minha cabeça de mãe e eu estava apavorada. Apesar de soar desestimulante, preciso dizer, foi MUITO MUITO difícil retornar. O tempo todo senti um buraco, um vazio no peito e eu me distraía com algo mas tinha sempre aquela sensação ruim me perseguindo, como um sentimento de luto, a sensação de que algo brusco me aconteceu e que não dava para simplesmente esquecer. Hoje Allegra está com 9 meses e meio e digo: não, o sentimento não melhorou! Ainda me pego com a mão no peito ao pensar na minha japinha enquanto estou no meio de uma reunião. O que acontece é que aprendemos a conviver com este sentimento. Este lembrete de que aquilo que é mais importante na sua vida está lá na sua casa, esperando seu dia acabar e você voltar para o que realmente importa. Sei que há todo um valor no ato de trabalhar: que é importante para mim e para ela, que o fato de eu investir meu tempo em outras atividades é saudável, mas há algo de fisiológico nesta separação que me pegou!

Agora vamos a parte prática: como arquitetei meu retorno se eu tinha um bebê que mamava exclusivamente no peito em livre demanda e eu não queria desmamá-la? Quinze dias antes do meu retorno comecei a tirar leite com o auxílio de uma bomba elétrica e estocava o leite congelando-o em saquinhos próprios para congelamento. Minha mãe, graças a deus, se disponibilizou a cuidar dela no período em que eu estou na escola. Fizemos um teste um dia antes do meu retorno, em que saí pelo período que ficaria longe e deixei ela com a mamadeira, além disso ela já havia ficado comigo vários dias observando nossa rotina e os sinais de fome da minha japinha.

Quando retornei, minha mãe passou a dar a mamadeira “picadinha” durante o período da manhã, de 50 em 50ml, assim como aconteciam nas mamadas (que eram vária e picadinhas, como um bom bebê acostumado com a livre demanda). Aos poucos foi aumentando a quantidade de leite por mamada até estabelecer uma rotina bem como até iniciarmos a introdução de alimentos, e assim ela mesma estabeleceu uma rotina (beeeem flexível). Com a introdução da mamadeira tivemos confusão de bicos e passei por altos e baixos com a amamentação, mas não desisti e continuamos firmes e fortes (sem necessidade de usar leite artificial). Troquei de bomba extratora o que também mudou minha vida, uso uma da Medela que é super eficiente o que reduziu o stress da retirada de leite. Tive uma queda na produção mas essa tem sido suprida pela introdução alimentar.

Fico fora a manhã toda, volto na hora do almoço, dou almoço para ela (algo que eu queria muito participar) dou de mamar e saio correndo para minha segunda jornada. Quando vou cuidar dos assuntos da Aurora Teodora, Allegra sempre me acompanha, e no sling ela observa tudo de pertinho seja em reuniões ou compra de tecidos, ela está sempre conosco (quer satisfação maior?)

E assim tem sido nossa rotina. Fui sincera no meu relato… já li muitos que pintam o retorno ao trabalho como “volta a vida normal” mas eu me pergunto: como voltar à mesma vida do mesmo jeito se EU mudei tanto?

Por RENATA NACCI CINTRA

Psicóloga, Psicopedagoga, Empresária e Mãe da Allegra, a quem carinhosamente chama de japinha, conta como lidar com todas essas funções e como foi sua volta ao trabalho. Escreve um pouco sobre o seu dia a dia no Instagram @maedajapinha e é sócia da loja virtual @aurorateodora .

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One thought on “Mãe que trabalha fora: como fica a vida?

  1. HINGRET

    Renata super te compreendo! Retornei ao trabalho quando meu baby estava com 5 e meio. Comecei a introdução alimentar com 5 meses porque queria participar desse processo (não foi fácil no início, muita rejeição). Meu baby estava só no peito em livre demanda também, quando retornei ao trabalho ele começou com LA, porém também ordenhava e congelava, então era LA, LM e papinha.
    Graças a Deus minha mãe cuida dele!!! Saio de casa às 06:40 e retorno às 16:00 e no momento não penso em encaixar nada além na minha rotina, pois quero curtí-lo o máximo possível. É muito difícil trabalhar fora, pois o tempo com o baby fica muito reduzido, além do cansaço! Mas o pior é ficar longe do meu pedacinho. Quando chego do trabalho quero ficar agarrada com ele, mas aí tem o marido, a janta, a casa, etc…. :(
    Nos fds tento curtir ao máximo.
    É uma tarefa difícil ter essa dupla jornada. Infelizmente precisei retornar ao trabalho por questões financeiras, mas se pudesse, com certeza me dedicaria ao meu baby em tempo integral. Quem sabe mais à frente?!
    Bjus!

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