Meu primeiro pós-parto: um pouco do que eu vivi

O primeiro pós-parto a gente nunca esquece

Nunca fui nenhum segredo para ninguém que eu queria muito meu parto normal, eu não queria passar por essa vida sem ter essa vivência. Nunca sequer tinha passado por minha cabeça ter uma cesariana e falei sobre isso a gestação inteira. Quando a Valentina nasceu, meu primeiro sentimento foi de vergonha. Isso porque as pessoas que me ouviram falar com tanta paixão sobre o parto normal queriam saber como tinha sido o tal parto normal, e quando eu respondia que na verdade teria sido uma cesariana era nítido o desapontamento. Mas eu me sentia segura na minha afirmação de que havia sido necessário e me fortalecia com isso. Mas passado um momento, foi como se um véu caísse e eu enxergasse a realidade do que havia acontecido. Eu me senti traída por aquele médico que havia estabelecido um vínculo mas principalmente me senti tola, boba e fraca de não ter percebido que tinha sido enganada e direcionada a uma cirurgia sem meu consentimento e sem a menor necessidade. Como eu não havia percebido isso no dia 29 de dezembro às vésperas do ano novo? Como  pude ter sido tão ingênua? Era o que eu não conseguia entender.

Naquela época eu pensava que para se ter um parto normal bastava querê-lo. Eu ainda não sabia que existiam muito forças invisíveis (e visíveis) para uma mulher enfrentar. Dizer que seu bebê pode entrar em sofrimento, é uma forma sutil e eficaz para desestabilizar uma mulher e se ela não tiver muito conhecimento do que está sendo dito ela fatalmente realizará uma cesárea acreditando fielmente que ela foi necessária. Foi isso que aconteceu comigo. Eu não dilatei, era o que eu respondia. O incrível, é que as pessoas engoliam com muita facilidade e tinham milhares de casos para contar de alguém que também não dilatou. Coincidência? Acho que não. É apenas retrato do que acontece em nossa sociedade quando falamos da forma que nascem os bebês.

Eu, e a maioria das pessoas precisam de ritos de passagens para se organizar mentalmente para uma mudança. Acontece isso na menstruação, acontece no aniversário de 15 anos e acontece quando olhamos os fogos de artifício no início do ano por exemplo. E eu não vivi esse rito quando a Valentina nasceu. Eu fui para uma consulta esperando apenas ser examinada e sai de lá as pressas porque minha filha nasceria porque segundo o médico ela poderia entrar em sofrimento. Mas eu ainda não havia sido preparada para aquele nascimento.

Durante a cirurgia, escutei o choro dela e não me senti mãe naquele momento. Tiramos uma foto muito rapidamente e a levaram para realizar os procedimentos fora dos meus olhos, mas eu não me incomodei com aquilo, não senti a necessidade desesperada de pegá-la no colo ou de amamentá-la. Parecia que eu ainda não havia me dado conta de que agora Valentina havia nascido e que precisava de meus cuidados fora do meu corpo. Eu não tinha sentido a responsabilidade por ela. Puxa, como é difícil colocar isso em palavras! Mas quando acordei pela manhã no dia 29 de dezembro, nada me fez pensar que aquele seria o dia do nascimento dela, era como um dia qualquer.

Quando Valentina foi levada, fiquei conversando normalmente e demorou muito tempo para eu ser limpada até que me levassem ao quarto.  Mas eu não estava ansiosa e também não fiquei emocionada como provavelmente as mães ficam e como eu fiquei quando a Isabela nasceu. E falando francamente, eu só percebi isso quando Isabela nasceu porque vi a diferença de sentimentos. Nada tem a ver o sentimento que tenho com as minhas duas filhas, não estou falando disso, estou falando de mim. Não fui preparada, foi como se tivesse sido jogada no olho do furacão e eu não havia percebido que minha vida tinha mudado. Naquele momento em diante eu não era a Mel, eu era a mãe da Valentina, mas ainda não tinha me dado conta disso.

Quando fui para o quarto, Valentina estava dormindo e eu a peguei no colo. Fiquei olhando um pouco para ela tentei amamentá-la com muita dificuldade, ela pouco mamou e adormeceu. E eu tentei dormir também. Quando alguma enfermeira ia no quarto tentava colocar ela novamente no peito e levava pra trocar a fralda. Eu, em nenhum momento tive a iniciativa de fazer isso ou de ver se a fralda dela estava limpa ou suja, ou de passar álcool no coto umbilical. A única vez que pensei foi quando saímos do hospital. O que eu quero dizer é que eu me coloquei em uma posição infantilizada, eu estava sendo cuidada e nem pensei que eu quem era a cuidadora principal daquela situação.

Quando chegamos em casa eu estava me sentindo muito mal, muitas dores. Sabe aqueles casos que as pessoas contam que tiveram uma recuperação ótima da cesariana? Sinto dizer, esse não foi o meu caso. Eu queria morrer por tanta dor. Forte isso não é? Minha filha pra eu cuidar e eu queria parar de existir, queria dormir e só acordar quando tivesse tudo cicatrizado. Pensava na minha barriga aberta, não conseguia levantar, tinha que dormir com a barriga para cima e minhas costas doíam. Foi um verdadeiro pesadelo! Eu detestava receber visitas, chorava muito, ia para o banheiro só para ficar um pouco sozinha e chorar.

O ápice foi quando o leite desceu, eu não sabia o que fazer com tanto leite. Valentina não conseguia mamar e eu não sabia como amamentar. Eu achava que colocaria ela no peito e ela sugaria, simples assim. Ir a um banco de leite fez toda a diferença para superar. Falei disso no post sobre hiperlactação.

Hoje vejo que durante a gravidez eu li muito sobre todas as semanas e o desenvolvimento da Valentina intrauterino, mas eu não havia lido nada sobre o pós-parto, não fazia ideia do que fazer e de como uma mulher sente nesse período. E por não saber achei que poderia estar em depressão pós-parto quando na verdade estava dentro do esperado no tocante ao que uma mulher sente nesse período. Em nenhum momento da vida tantas mudanças acontecerão em tão pouco tempo.

Veja, você não encontrará esse tipo de informação facilmente porque as mulheres se envergonham de dizê-lo. Eu me sentia desfragmentada, desorganizada e não estou dizendo que isso se deve a cesariana porque eu não sou objeto de nenhuma pesquisa para afirmar isso. Mas quero que as mulheres saibam que é normal se sentir assim no pós-parto. É normal chorar e querer se esconder. É normal respirar fundo quando chega a hora de amamentar, ou porque você sabe que seu seio vai doer ou porque não sabe como fazer o bebê mamar. É normal querer que o tempo passe rápido. É normal se questionar se você vai conseguir passar por aquilo ou se estava mesmo preparada para ser mãe.

Eu fiquei muito inchada, tinha que tirar leite e esterilizar tudo antes, era sempre um tumulto. Mas o tempo passou e eu só consegui me sentir responsável pela Valentina quando os pontos da cesariana foram retirados e eu não sentia mais tanta dor física. Os primeiros dias da Valentina foram caóticos e o inesperado se tornou frequente. E é isso que eu quero dizer, passa. Lembro de sentar no banheiro e perguntar se aquilo iria passar e ninguém me disse que iria. Por isso repito: passa. A mulher no pós-parto se encontra com ela mesma e é muito difícil alguém estar preparada para esse encontro.

Finalizo esse post com um trecho do livro “A maternidade e o encontro com a própria sombra” da Laura Gutman.

“Com o surgimento do primeiro bebê, além da desestruturação física e emocional, torna-se evidente a perda dos espaços de identificação: ausentamo-nos do trabalho, do estudo, deixamos de frequentar espaços de lazer, ficamos submersas em uma rotina aflitiva, sempre à disposição das demandas do bebê; cada vez menos pessoas nos visitam e, sobretudo, temos sensação de estar ‘perdendo o trem’, de ter ficado fora do mundo. A vida cotidiana é passada entre quatro paredes, pois sair com um bebê muito pequeno é quase sempre desanimador.

Somos puérperas durante um período que dura, em minha opinião, muito mais do que os famosos quarenta dias. O puerpério não termina quando o obstetra dá alto após a cicatrização da cesariana ou da perineotomia. Não se trata da recuperação definitiva do corpo físico depois da gravidez e do parto, mas tem a ver, sim, com a emoção compartilhada e a percepção do mundo com olhos do bebê. Doloridas, cortadas, humilhadas em muitíssimos casos pelos maus-tratos durante o parto (embora poucas mulheres tenham consciência disso), expelindo líquidos por cima e por baixo e com um bebê que chora sem que possamos acalmá-lo, deparamos com um angústia terrível que piora depois das seis da tarde, coincidindo dramaticamente com o horário mais difícil para a criança… Algumas mulheres sofrem com a solidão, a falta de parentes ou amigos que as compreendem e as abracem, um marido que trabalha o dia inteiro e o vazio produzido pelo fato de não reconhecer a si mesmas.

Quando planejamos uma mudança para outro país, presumimos um período de adaptação, o aprendizado de outro idioma, a aceitação de novos códigos de convivência, a ausência de amigos e um mundo novo a descobrir. A chegada de um primeiro filho produz nas mulheres uma perda de identidade semelhante, embora parir não seja exatamente mudar de um país: é mudar para outro planeta!

 

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