O lado B do meu parto normal, aquilo que eu não contei

A parte que eu não contei do meu parto normal

Contei em detalhes como foi meu parto normal depois de uma cesárea. Mas o que eu não contei foi o lado B, aquela parte que guardei pra mim porque demorei um pouco para assimilar e digerir.

Em um primeiro momento achei que havia fracassado, depois achei que talvez eu idealizei demais a situação e só agora entendo o que foi que aconteceu. Na verdade, uma parte considerável do meu parto (e do meu pós-parto) foi roubada e vou contar aqui hoje um pouco desse sentimento que guardei.

Eu quis ser protagonista do meu parto, eu não queria ser levada por uma decisão irracional, nem que fosse de um médico. Quando o ginecologista que me acompanhava disse que a Isabela teria que nascer porque ela estava bem e eu não entraria em trabalho de parto (como aconteceu com a Valentina), sem nenhum argumento plausível eu não reclamei, eu não disse nada. Como já disse outras vezes, eu assenti com a cabeça e neguei com o coração. Segundo ele eu deveria ir para o hospital logo pela manhã para realizar a cesariana porque a Isabela já estava grande demais.

No dia que deveria realizar o procedimento eu fiquei em casa e mais tarde fui a um evento do dia das mães com a Valentina na sua escolinha. Foi o primeiro dela. Me senti feliz porque havia comparecido àquele momento que provavelmente era mais importante para mim do que para ela, mas depois daquela situação eu sabia que Isabela poderia nascer porque eu estava pronta. Eu acredito fielmente que estava a prendendo em mim. Quando anoiteceu, sentia contrações esporádicas que começavam a ritmar, mas ainda não me incomodavam o suficiente para que eu achasse que Isabela estava nascendo. Fui a um pronto socorro para procurar uma segunda opinião porque eu não entendia porque eu teria que fazer uma cesárea se minha filha estava tão bem, mas também não assumiria o risco sozinha. Felizmente logo no primeiro hospital encontrei alguém disposto a me falar a verdade. Mas se não encontrasse, iria a outro hospital. Isabela estava bem, eu não tinha perdido líquido, seus batimentos estavam normais, minha placenta estava ótima. Então não, eu não ia mais uma vez abandonar esse meu desejo ardente de ter minha filha com a ajuda apenas do meu próprio corpo. Eu não estou entrando no âmbito de certo e errado, mas para mim não existe nesse cenário nada mais errado do que manipular uma mulher que deseja e tem condições para realizar um parto normal a fazer uma cesariana.

A médica que me atendeu realizou uma cardiotocografia e não havia nenhum sinal de sofrimento fetal e ela também verificou que minhas contrações estavam atingindo duas a cada 15 minutos. “Mel, sua filha está chegando. Mas não necessariamente agora, amanhã, ou depois. Tenha paciência que ela está bem e se você precisar você pode me ligar.”  Esse suporte foi um grande alívio, porque depois de não comparecer à suposta cesárea eu não poderia mais ligar para o Ginecologista que me acompanhou toda a gravidez e mesmo se pudesse não confiaria mais no que ele pudesse me falar.

Passei por todo o processo do trabalho de parto em casa, como contei detalhadamente no meu relato de parto. Mas vou me deter agora, no que aconteceu quando cheguei no hospital. O hospital estava cheio e disseram que eu só entraria no hospital se estivesse em trabalho de parto, caso contrário não havia lugar para mim. Essa já não foi a melhor maneira de começar aquela história. Entrei sozinha, já muito desconfortável e realmente eu estava em trabalho de parto ativo, na verdade, já estava com 7cm. Mas isso eu já sabia porque estava muito consciente do meu próprio corpo e da Isabela, estávamos muito conectadas até aquele momento. Minha bolsa não havia rompido e eu ainda sonhava com um parto empelicado. Havia uma grande possibilidade disso acontecer, já que estava chegando no final do trabalho de parto e não havia perdido nenhum líquido. Acontece que a natureza não pôde escolher, porque uma médica sem nem mesmo esperar que eu concordasse (embora dificilmente ela me escutaria), afirmou logo após um exame de toque de que estouraria a minha bolsa e assim fez. Durante uma contração ela inseriu algo que parecia uma agulha de crochê e ficou como se espetando aquilo em mim. Naquele momento além da dor lancinante, dor essa que não senti em nenhuma contração diga-se de passagem, eu também me senti invadida. “Agora vai ir mais rápido” A ginecologista disse. Mas e quem é que estava com pressa? Porque tanta pressa em um momento como aquele? Nos fizeram pensar que um trabalho de parto bom, é um trabalho de parto rápido. Por quê? Isso é reflexo do mundo em que vivemos, rápido foi convertido em eficiente.

Depois daquele momento, toda a minha concentração para com o meu parto se esvaiu. E me deixaram sozinha. Eu que estava tão compenetrada, me perdi. Muito sangue começou a escorrer nas minhas pernas e eu fiquei envergonhada de esparramar sangue por onde passava. Fiquei em um banheirinho tentando não sujar mais o quarto pequeno de sangue. Mas as dores começaram a ficar muito forte. Eu me senti um bicho enjaulado. Hoje eu atribuo essa dor descompensada e gritante não ao fim do trabalho de parto que se aproximava, mas à situação a qual fiquei. Me senti exposta e sozinha. Ninguém quer se sentir sozinho na dor, nem mesmo eu que gosto tanto da solidão clamei por uma pessoa querida. Eu chamava pelo meu marido mas eles não o deixaram entrar, diziam que estava arrumando o quarto para eu ficar. Depois diziam que ele estava se paramentando. Mas nesse tempo se passaram aproximadamente quarenta minutos, mas sem dúvida foi o tempo maior durante todo o trabalho de parto. O tempo é sempre algo muito relativo.

Enquanto eu ainda estava sozinha, senti que Isabela estava se preparando para chegar. Falei para uma enfermeira que arrumava o quarto um pouco sem força. “Ela está nascendo.” Muito grosseira ela me respondeu: “Que nascendo o que, você acabou de chegar menina.” De fato, talvez eu não teria encarado como grosseria em outro momento. Mas naquele momento eu me senti ferida. Eu só queria alguém para segurar meu corpo que mau se sustentava. Qualquer paciente que chegue sentindo dor em um hospital será melhor atendido do que uma mulher em trabalho de parto. E isso é lamentável.

Quando enfim meu marido chegou, eu disse a ele que Isabela estava nascendo. Estava eu em um banheiro, com um chuveiro frio ligado o qual eu não conseguia ficar, uma cadeira de rodas que eu jamais conseguiria sentar e estava abaixada sustentando o meu corpo em um daquelas barras que usam para adaptar banheiros à deficientes físicos. Eu havia entrado no período expulsivo e a dor já não era mais tão forte (ou será que é porque meu marido agora estava comigo e eu já me sentia segura?). Em uma contração cheguei a senti-la com o toque das minhas mãos. Ele viu e correu pedindo ajuda à mesma enfermeira que negou ajuda a mim. Ela não fez muito e ele disse: “Você vai fazer alguma coisa ou eu vou ter que fazer?” Ela então saiu para chamar uma médica. Veio outro enfermeira, essa mais gentil. Disse que deveria aferir minha pressão, medir minha temperatura e colocar o acesso, procedimentos esses que deveriam ter sido feitos assim que eu cheguei. Naquele momento que eu estava, no período expulsivo eu não poderia nem imaginar esticar o meu braço e permanecer parada. Não sei nem como conseguiram me deitar na cama para realizar esses procedimentos, mas nesse momento uma contração novamente veio e a Isabela coroou.

A contração passou e ela subiu novamente e uma correria foi feita para me levar ao centro cirúrgico. Fui andando, quase correndo porque não quis sentar na cadeira de rodas. Na verdade eu não poderia fazer isso nem se quisesse. Chegando lá uma outra contração começou e quiseram me deitar na maca, mas eu não fui porque sabia que a melhor posição para Isabela nascer seria de cócoras. Tudo que eu já havia lido sobre não fazer força e esperar a contração vir para proteger o períneo foi esquecido. Só escutava gritos, faz força, faz força, fiz muita força e Isabela nasceu em uma só contração.

O resultado foi um períneo lacerado. Mas eu não me importei com isso naquele momento. Olhei para Isabela e quis pegar ela, cheirar ela, esperei muito por aquele momento. Eu chamei seu nome em cada contração por mais de 24 horas. E em todo o meu trabalho de parto aquele momento que estava para chegar era o que me fortalecia. Mas não foi isso que aconteceu. A primeira hora da Isabela foi roubada de mim, e minha primeira hora como mãe da Isabela também.

Quiseram realizar os procedimentos nela ali do meu lado porque queriam que ela descansasse um pouco e me disseram que se ela não começasse a respirar melhor em uma hora, ela iria para a UTI. Isso felizmente não aconteceu, e ficou bem claro que ela estava apenas cansada depois do parto. Nós estávamos. Nós precisávamos uma da outra. Enquanto isso eu fiquei totalmente exposta a muitas enfermeiras, médicas, estudantes. Elas falavam entre si como se eu não estivesse ali. Alguns dos diálogos:

-Nossa, eu acho que rasgou demais ein? Tinha que ter feito episio.

-Rasgou mesmo, vai ter que suturar muito.

-Acho que vamos ter que costurar por dentro.

-É, vai ter que costurar o reto.

-Será que foi de terceiro grau?

-Nossa, rasgou de fora a fora.

-Ela está com hemorragia, vamos dar outra dose.

Eu comecei a chorar. Pensava de que tinha valido ter um parto normal, ter sentindo tanta dor para no final ter aquele sofrimento. Pensei, minha filha estava com dificuldade para respirar, eu estava morrendo com hemorragia e ainda estava toda rasgada. Eu me senti rasgada por dentro e por fora, não consigo usar outra palavra. Eu fiquei com essa palavra: rasgada chicoteando em minha mente. Demorou muito tempo para que ela desaparecesse, e quer saber? Ela volta às vezes.

Por fim, Isabela não precisou ir para a UTI, minha laceração não era de terceiro grau, em três dias já havia cicatrizado e a hemorragia foi contida. Mas a verdade, é que eu não precisava ter ouvido nada daquilo. A primeira hora do nascimento da minha filha deveria ter sido de êxtase, de encontro e reencontro. Já li em muitos relatos as mulheres descrevendo como mágico o momento em que o bebê nasceu, que sentia os pedacinhos do seu corpinho escorregando. Eu não, o momento que a Isabela nasceu foi marcado de muito barulho, muita gente e muita luz. Foi essa a visão que ela teve. E se eu não soube assimilar tamanho tumulto, imagino como foi para ela. Eu pensava: “Deu tudo errado. Podia ter feito mesmo a cesariana.” Não sei se pensei ou se falei, mas alguém ouviu e veio falar comigo. Tinha alguém ali que me escutava e estava prestando atenção em mim. Me acalmou e disse que estava tudo dentro do previsto, que eu não precisava me assustar, que eu tinha sido uma guerreira e que era uma parideira.

Será que os profissionais que estavam lá lembram ainda daquele parto? Dificilmente. Para eles foi só um parto de muitos que devem ter realizado naquele dia. Mas para mim, aquele foi o parto que eu esperei, o meu parto lutado depois de uma cesariana, aquele que eu tive que enfrentar uma decisão médica para conseguir. E principalmente, aquele foi o único parto que a Isabela nasceu. Eu demorei um pouco para digerir e no dia seguinte não queria nem sequer falar do meu parto. As pessoas me davam os parabéns e eu ficava inerte e nem mesmo agradecia.Passado esse primeiro momento consegui descartar essa parte para que ela não pudesse apagar o momento grandioso que foi quando a Isabela nasceu.

Veja bem, não é minha intenção com esse relato de pós-parto causar a desistência de quem quer um parto normal. Depois de assimilar as duas situações, os dois partos em que vivi, sem dúvida parto normal será sempre minha primeira opção. Meu desejo é com isso despertar e levar as pessoas a se prepararem melhor para um parto digno e a terem alguém preparado do seu lado, para lutar por você. Se não for uma doula, que seja sua mãe ou seu marido, alguém que esteja preparado para os percalços que podem surgir e que te ampare nesse momento. Não pense você que a dor é o pior que você terá que enfrentar em um parto, dor é diferente de sofrimento. A parte mais difícil de um parto normal são os outros. Porque já dizia Carlos Drummond de Andrade, “A dor é inevitável, o sofrimento é opcional.”

Quase duas horas depois pude pegar Isabela em meus braços.

Quase duas horas depois pude pegar Isabela em meus braços.

One thought on “O lado B do meu parto normal, aquilo que eu não contei

  1. Sandra Gissi

    Olá Mel sigo vc no insta,e hj li seu relato de parto, e vc me deu muita força pois estou com 38 semanas e perdi o tampao,mas nada de contrações! O meu maior medo é do ser humano ! Estou sim com muito medo,mas me senti tão renovada com suas palavras,veja , a força que vc passou nesse relato foi incrível!
    Você é muito guerreira…
    Sem palavras e emocionada !
    Desejo que Deus abençoe infinitamente vc e suas família ,e vc e suas pequenas que são lindas demais!
    Depois te conto como foi meu parto!
    Com carinho
    Sandra Gissi

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