Perguntas e respostas por Carolina Arantes

Perguntas e respostas

Por

Carolina Faria Arantes

CRP 34041/04

Mestre em Psicologia da Saúde – Processos Cognitivos / UFU

Especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental / UFU

Pesquisadora na área da Prevenção e Tratamento de crianças, adolescentes e orientação de pais.

Psicoterapeuta, professora e supervisora no Instituto Integrare – Uberlândia/MG

Contato: carolfariaarantes@gmail.com ou carolina@integraretcc.com.br

Site: www.psicologauberlandia.com

Página Facebook: Psicóloga Carolina Arantes

Instagram: @psico.carolina.arantes

Olá pessoal! A minha participação desta semana será um pouco diferente. Irei responder as perguntas que algumas seguidoras do blog fizeram no bate papo da madrugada. Tenho certeza que são questões que afligem boa parte de todas vocês!

A maior parte das perguntas se refere à relação entre irmãos e aos conflitos provenientes da chegada do caçula. Outra parcela tem relação com comportamentos inadequados das crianças e adaptação do filho a uma nova rotina. Irei falar de maneira geral sobre cada um desses problemas e, em seguida, responder especificamente a cada pergunta.

  • A chegada de um irmão e o comportamento do primogênito

É muito comum ouvirmos de várias mães que “com o segundo filho é muito mais fácil”. Certamente, no que se refere às questões práticas dos cuidados com o bebê isso é verdade. Mas, se pensarmos nos aspectos emocionais que envolvem tanto o primogênito quanto os pais, a situação passa a ser um pouco mais complicada.

A chegada do novo membro altera toda a estrutura familiar e, especialmente, a relação dos pais com o filho mais velho. Este, que antes do irmão, tinha toda a atenção do pai e da mãe, agora tem que dividi-la. Além disso, não parece ser uma “divisão justa”, uma vez que o bebê exige muito mais cuidados do que uma criança com mais de um ano de idade.

O fato da atenção e tempo da mãe ficarem mais voltados para o novo filho é uma consequência da nossa natureza. A mulher é “programada” para se vincular intensamente ao bebê por uma questão de sobrevivência do mesmo. Principalmente antes do primeiro ano de idade, a criança é extremamente frágil e totalmente dependente da mãe. É essencial que haja esta vinculação intensa entre ambos, para que a mulher não se disperse dessa vida que depende tanto dela. O problema é que, com isso, o filho mais velho sofre com a perda.

Neste momento, é muito comum que sentimentos de abandono, ciúme, rejeição sejam experimentados pela criança, o que resulta em comportamentos que visam recuperar a atenção perdida. Esses comportamentos, na maioria das vezes, são muito aversivos e de difícil aceitação no contexto social.

Manejar as necessidades do bebê, o estado emocional do primogênito, o cansaço proveniente da nova (e intensa) demanda pode ser altamente exaustivo e deixar os pais totalmente desorientados. As questões abaixo são demonstrações de como essa “reconfiguração” familiar pode ser complicada:

  1. Estou grávida de 36 semanas e tenho notado que o desempenho do meu filho de sete anos caiu. Isso é normal? Pode ser ansiedade ou ciúme?

Pode! Mas essa não é a única possibilidade. Para ter certeza do que se trata essa queda no desempenho da criança, seria necessário analisar meticulosamente todas as variáveis envolvidas nesse problema (por exemplo: quando começou, é uma queda do desempenho em qual sentido? Na escola? Nas relações interpessoais?). Pode ser que esse prejuízo não tenha nenhuma relação com a chegada do irmão, mas é totalmente possível que sim.

Pesquisas mostram que a relação da mãe com o primogênito começa a sofrer transformações ainda durante a gestação do caçula. É comum que a mãe passe a interagir menos com o filho, reduzindo o tempo dedicado a brincadeiras, passeios e demais atividades com a criança. Como consequência, há uma diminuição significativa no apego seguro do filho com relação à mãe. Apego é um tipo de vínculo que a criança tem com figura materna, que diz respeito à satisfação de suas necessidades básicas. Quando ele é saudável, isto é, a mãe é capaz de satisfazer as necessidades básicas do filho (lembrando que as demandas emocionais, como atenção e afeto também são necessidades básicas), a criança se sente segura e protegida. Quando esse apego é comprometido, a criança passa a se sentir vulnerável, desprotegida, abandonada.

Para evitar que isso aconteça, é essencial que os pais (especialmente a mãe) cuidem para que não haja uma diminuição acentuada na interação com o filho mais velho. É essencial que fique claro para a criança que o amor que os pais têm por ele não está em jogo por causa da chegada do irmão, mas para isso, não adianta somente usar as palavras. É preciso haver interações de qualidade com o filho, como investir tempo em brincadeiras e passeios, manter o foco na rotina e demais questões disciplinares voltadas para a criança, demonstrar o mesmo interesse pelos comportamentos e situações da vida da criança.

  1. Tenho uma filha de três anos e uma de sete meses. A de três anos, às vezes, dá febre sem nenhum sintoma. Empurra a irmã, grita e anda muito agitada. Eu dou muita atenção pra ela, mas não estou conseguindo dar com qualidade. Como faço para organizar uma rotina para ter o tempo correto com elas? Sem incluir o marido, porque ele não ajuda de jeito nenhum.

 

Essa é uma das maiores dificuldades das mães de dois filhos: conseguir dar atenção de qualidade para as duas crianças. Comportamentos como esses (agredir o irmão, gritar, chorar) na maior parte das vezes são tentativas da criança de chamar a atenção dos pais. A presença desses comportamentos é normal, mas sinaliza a necessidade de cuidar para que as necessidades dessa criança não sejam negligenciadas, para que ela não se sinta abandonada.

É difícil sugerir uma nova rotina sem conhecer como ela é atualmente e quais são as responsabilidades da família. O importante é que ela seja organizada de forma a disponibilizar tempo para fazer atividades junto com o mais velho, de forma que ele perceba que o seu lugar na família ainda existe, independente da chegada do irmão. Então, encaixe atividades para fazer com o primogênito enquanto o mais novo estiver dormindo (ou sendo cuidado por outras pessoas de sua confiança), faça um passeio somente com o mais velho. Cada filho tem que ter sua relação individual com os pais e isso pode ficar comprometido com a chegada do caçula. É essencial que a sua relação com a criança se mantenha, que você ainda demonstre para ela (através de palavras e atitudes) o quanto ela é importante e única para você.

Além disso, é importante que a amizade entre os irmãos seja estimulada pelos pais e, para isso, é preciso mostrar para o filho mais velho as vantagens de ter este irmão. Porém, se você mostra, em palavras, tudo o que ele pode ganhar com o irmãozinho, mas, na prática, o que está acontecendo é a perda de atenção e de espaço, com certeza seus argumentos não vão convencer.

  1. Tenho duas filhas, uma de 14 anos e uma de 19 meses. A mais velha não apresenta ciúmes, mas às vezes sinto que não dou a atenção devida. Quais sinais devo procurar na filha mais velha de ciúme do caçula?

Não é comum que uma criança (ou adolescente) de 14 anos apresente alteração comportamental devido ao ciúme do irmão, uma vez que ela já é capaz de entender o que a chegada de um bebê significa. Porém, se você percebe que não tem dado atenção suficiente para ela, isso precisa ser mudado. Ciúme não é a única consequência da carência de atenção. Nessa idade, comportamentos desafiadores podem ser muito comuns e podem ter relação com a percepção que a criança/adolescente tem de não ser amado pelos pais, o que pode gerar sérias consequências no desenvolvimento da personalidade do indivíduo.

  • Presença de comportamentos indesejados

 

  1. Meu bebê tem 11 meses e é só mordidas, tapas e puxões de cabelo em todos que passam por ele. Como contornar essa fase? Digo não, explico que não pode, mas ele apenas ri.

É comum que crianças nessa faixa etária tenham comportamentos como esses, devido a sua dificuldade de comunicar seus desejos, de controlar seus impulsos e também para experimentar e explorar o resultado de seus comportamentos no ambiente. Porém, não é porque é algo normal da idade que deve ser aceito.

Um comportamento só se repete quando é recompensado, ou seja, quando através dele, alguma consequência positiva é obtida. Se seu filho ri quando isso acontece é porque alguma coisa que acontece em consequência de seu comportamento o agrada e, enquanto isso acontecer, o comportamento continuará. Gosto muito de recorrer aos animais nesses casos. Uma vez vi um vídeo que mostrava uma leoa ensinando ao seu filhote que ele deveria ficar sobre uma pedra. O filhote insistia em descer, mas a mãe o pegava pela boca e o colocava na pedra. Novamente ele descia, mas a mãe fazia a mesma coisa. E assim foram muitas vezes seguidas, até que o leãozinho desistiu e ficou sobre a pedra. A mesma coisa deve ser feita no seu caso.

Primeiramente, é preciso haver uma repreensão do comportamento. Se seu filho ri quando você chama atenção, certamente terá que mudar seu jeito de censurá-lo. Precisará tentar até encontrar qual tipo de repreensão realmente gera incômodo e, ao encontrar, repetir várias vezes. Posso te dizer que, nessa idade, explicar-lhe o porquê de um comportamento não ser certo não vai adiantar muito. O indicado é que você o contenha sempre que ele emitir esse comportamento (Ex: segure sua mão firmemente, sem machucar, e fale olhando em seus olhos, com a voz bem firme e expressão facial “fechada”: “não pode!”). Se ele chorar, deixe que chore, não tente compensar o choro com algo agradável. Ele precisa entender que ao emitir aquele comportamento, terá como consequência algo ruim. À medida que esse tipo de repreensão for sendo repetido ele aprenderá que não deve se comportar dessa forma.

  1. Minha filha está com 1 ano e 3 meses. Ela é um amor, calma, porém faz duas semanas que, quando é contrariada ou recebe um não, ela grita, chora gritando. Pego ela e converso, falo que não pode fazer aquilo. Até me bater ela já tentou! Como agir nesse caso?

Já escrevi um texto aqui no blog sobre os sentimentos “negativos”: raiva, medo e tristeza. Lá, expliquei qual a função de cada sentimento. A raiva é extremamente necessária para nós seres humanos e ela tem a função de impulsionar o indivíduo a lutar pelas suas vontades diante de algum obstáculo. É exatamente isso que está acontecendo com sua filha e é perfeitamente normal. Porém, mais uma vez, não é porque é normal que pode continuar.

Todos nós sentimos raiva diante de algo que impede que nosso desejo seja atendido. Por esse motivo, todos nós já tivemos vontade de agredir alguém pelo menos uma vez na vida. O que faz com que isso não aconteça é saber as consequências provenientes desse comportamento. Pensar nas consequências de um comportamento antes de agir e, só então, decidir se o emitiremos ou não demanda capacidade de controlar os impulsos. Na idade que sua filha tem essa capacidade ainda está em desenvolvimento e cabe a você ajuda-la a desenvolvê-la. Para isso, é essencial que você dê consequências negativas para esses comportamentos de sua filha (não só os de agressão, mas também para o choro e gritos). Simplesmente conversar e explicar que esses comportamentos não são adequados talvez não vá adiantar. É necessário que ela vivencie a consequência desagradável do seu comportamento. Leia o texto “Birras: como lidar com elas” e veja algumas orientações de como os pais devem proceder nessas situações.

  • Adaptação em uma cidade nova

 

  1. Estamos mudando de cidade e meu filho de sete anos está sofrendo muito. O que posso fazer para que ele não sinta muito? Dar recompensa é viável nesse momento ou não?

Com certeza seu filho irá sofrer. Não adianta (e nem deve) tentar evitar isso. Entendo perfeitamente sua preocupação e realmente é muito importante a sua postura nesse momento, mas para ajuda-lo a lidar com a situação e não para evitar seu sofrimento.

Com sete anos, certamente ele já fez amigos e já tem uma rotina bem estabelecida na cidade atual. É esperado que ele se sinta triste, ansioso, que apresente alguma dificuldade para dormir e/ou para comer, que fique mais quieto, enfim, a alteração comportamental é normal em situações como essa. É importante saber que todos nós temos habilidade de nos adaptarmos às novas situações, mas que isso gera sofrimento no início.

O importante é que seu filho se sinta protegido e seguro, o que dependerá da estabilidade da estrutura familiar. A cidade e as pessoas com as quais convive podem mudar, mas a sensação de segurança advinda da relação familiar deve se manter. Também é essencial que a criação de novos vínculos seja estimulada. Fazer novos amigos, participar de novas atividades, ter uma rotina são fatores de grande importância para a adaptação ao novo ambiente. Especialmente enquanto essa adaptação não ocorre, é indicado que a família se mantenha unida, que façam atividades, passeios e se divirtam juntos. Isso fortalece o vínculo entre os membros da família, o que dá a segurança necessária para iniciar novas relações.

Com relação à recompensa, elas se tratam de consequências positivas que devem ser dadas para mostrar para a criança que determinado comportamento é muito bom e deve ser repetido. O que você quer recompensar? Pelo que eu entendi, acredito que você esteja tentando fazer com que a mudança seja algo o mais agradável possível para ele. Para te falar com segurança se recompensas são viáveis nessa situação, precisaria saber exatamente do que elas se tratariam. Porém, ter a segurança e apoio da família nesse momento é a maior recompensa que ele pode receber.

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