Por que é tão difícil o desmamar?

Sobre a dificuldade de desmamar

Recentemente tive uma crise alérgica forte que não foi aplacada apenas com corticóide e tive que me sucumbir ao fenergan, medicamento que não pode ser ingerido enquanto amamentamos. Essas crises já são conhecidas por mim porque já as tenho desde os 10 anos de idade, e aparecem sempre que eu estou muito cansada ou muito nervosa. Eu estava as duas coisas. Não se trata de uma alergia a algo específico, essa é uma condição crônica imunológica que já foi acompanhada por vários dermatologistas.

Já faz algum tempo que venho comentando aqui sobre a minha dificuldade em amamentar a Isabela. É muito diferente amamentar o primeiro filho, e amamentar um segundo. Tudo bem que em se tratando de pega, de posições tudo é mais tranquilo pela segunda vez. Mas se quando amamentamos o primeiro filho é um momento de paz, com o segundo não é bem assim. Todas as vezes que amamentava a Isabela sentia estar excluindo a Valentina. Ela inventava mil coisas e a amamentação quase sempre tinha que ser interrompida. Isabela mamava picado, e queria mamar o dia inteiro. Comer não parecia ser mais uma opção pra ela! E durante a noite não era muito diferente, suas mamadas foram espaçando cada vez menos, e estávamos chegando ao ponto de que ela queria dormir apenas enquanto mamava. Fica claro agora o motivo do meu cansaço.

Ainda assim, eu não queria desmamar. Eu queria muito fazer do mesmo modo como fiz com a Valentina. Valentina mamou até 1 ano e 1 mês e eu tinha uma ideia fixa de fazer exatamente igual com a Isabela. Mas qualquer mãe de dois filhos (ou mais) sabe que é impossível fazer qualquer coisa igual para os filhos. No final a gente é aquilo que consegue ser, você faz o seu possível. Eu percebi que não estava mais conseguindo amamentar, mais do que isso, percebi que em muitos momentos não queria. Estava ficando irritada enquanto a Isabela mamava em muitas vezes, querendo apressá-la. A noite eu perdia a paciência e comecei a perder durante o dia também. Mas continuava pensando, faltam só mais dois meses, aguenta firme. Até que eu adoeci, e a natureza escolheu por mim. Muitas pessoas não sabem disso, mas nosso corpo é muito sábio. Quando você não para, ele para por você. E foi isso que aconteceu. Como eu teria que ficar 24 horas sem amamentar, eu resolvi desmamar.

Depois de estar tão cansada, e estar certa de que era a decisão mais sábia a se tomar, eu deveria estar aliviada, não é? Não foi isso que aconteceu. Todo desmame é muito difícil! Dói. E por que dói? São tantos os motivos… em primeiro lugar, não podemos esquecer que tem uma questão hormonal envolvida, e um desmame abrupto sempre acarreta também em uma queda abrupta hormonal também. Você se sente como em um processo de baby blues, para que vocês tenham uma ideia, é com muita luta que escrevo. Nesses últimos dias tenho tido vontade de parar de escrever (algo que sempre me gera satisfação). Mas eu já desmamei uma vez, e sei que isso passa.

Não podemos esquecer também, que o desmame é o último corte no cordão umbilical invisível que ainda pulsa entre mãe e bebê. Amamentar é algo que só nós podemos fazer, por esse motivo no processo de desmame é normal se sentir inadequada e desnecessária. Vivemos um luto, é um fim de uma troca muito profunda e íntima. Por outro lado, algumas mulheres guardam a a sua identidade feminina dentro de uma gaveta enquanto estão amamentando e desmamar é inevitavelmente um novo reencontro com essa face adormecida. Depois do desmame, chega a hora de juntar todos os fragmentos e seguir sendo a nova mulher que nos tornamos.

E, falando de mim, não está nos planos ter um outro filho, por isso sinto que fechei um ciclo muito importante. Eu não vou amamentar novamente. Isso é muito mais doloroso do que libertador. Por quase quatro anos eu estou em um ciclo, gravidez, amamentação, gravidez, amamentação e agora eu vou redescobrir meus papéis. Eu vivo tentando digerir a realidade de que não posso fazer tudo o que fiz para a Valentina igual para a Isabela, vivemos em uma outra realidade (não só estrutural como também financeira), e o desmame antes da minha programação (entenda, eu sou uma pessoa que programa muito) com um atestado dessa impossibilidade.

Farei um post para contar o diário do desmame da Isabela para que esse não fique muito extenso, mas já quero adiantar que depois de mais de 3 anos sem dormir uma noite inteira eu finalmente posso dormir. Meu corpo ainda não entendeu isso e continua acordando! Mas quero deixar claro que a Isabela dormir não se deve especificamente ao desmame, já que eu poderia dar a mamadeira e continuar com um mau hábito. Mas eu não fiz isso, persisti nas três primeira noites e não dei mamadeira e agora ela está dormindo a noite toda. Eu poderia fazer apenas o desmame noturno? Poderia. Mas não era apenas a privação de sono que estava me cansando, tem também a parte que agora posso passar um dia inteiro sem interrupções com a Valentina ou deixar ela com a vovó enquanto posso descansar. O desmame é uma decisão muito particular da mãe, existem teorias que preconizam que o bebê é quem deve conduzir o desmame da qual não compartilho. Só a mãe é que conhece o seu limite, e não é bom para nenhum bebê ter uma mãe que já teve seu limite ultrapassado. E foi isso que aconteceu comigo, eu sabia que iria doer e que eu iria sentir falta (agora mesmo enquanto escrevo sinto meu leite descer me lembrando que posso mudar de ideia), mas eu sabia também que eu tinha chegado no meu limite da exaustão.

Quero finalizar com um diálogo entre eu e a Psicóloga Carolina Arantes, colunista aqui do blog:

“Mas essa é só uma das suas inúmeras práticas como mãe. Sei que tem toda uma questão emocional e hormonal envolvida, mas é questão de tempo para superar e sentir (digo sentir, porque saber, certamente você sabe) que a amamentação é só uma parte de um ‘cargo’ tão essencial na vida de suas filhas. É uma despedida da fase de bebê, não é? Deve doer mesmo. Mas o negócio é focar nos ganhos e ver que em cada fase vai ter una demanda tão importante e significativa quanto a amamentação.”

Obrigada pelas palavras Carol, fez muita diferença para mim.

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