Primeiros dias de uma mãe de primeira viagem

Como foram os primeiros dias com a Valentina

Quando a Valentina teve icterícia, e a levamos ao médico, já nos primeiros dias senti muito forte o peso da maternidade em meus ombros. Ouvi o pediatra me condenar com os hormônios e nervos à flor da pele. Lembro dele dizer: “Você a deixou passando fome, ela está chorando de fome. Ela está com icterícia muito avançada, você deveria ter vindo antes.”

Quando ouvi essas duras palavras, chorei muito, aquele choro que dói na alma, sabe? Lembro como se fosse hoje eu carregando a Valentina embrulhadinha, olhando para ela prometi a mim mesma que isso não iria acontecer de novo. Eu iria cuidar bem daquele serzinho. Eu só conseguia pensar que tinha sido muito negligente com aquele bebê que Deus havia me confiado. Hoje eu já não vejo dessa maneira, eu fiz o que podia. Não tive uma recuperação tranquila do parto cesariana, e havia confiado a Valentina aos meus familiares que lá estavam comigo. Além disso, faltou muito assistência do hospital que a Valentina nasceu, principalmente em relação à amamentação que foi muito difícil devido à hiperlactação.

Esse acontecimento mudou muito minha visão como mãe. Quando estava grávida acreditava que seria tranquilo e que eu seria uma mãe mais relaxada. Mas a verdade é que eu achei muito difícil ser mãe da Valentina nos primeiros três meses. Eu fiquei um pouco obcecada. Fazia vários check-up nela ao longo do dia, avaliava nariz, olho, boca, pés, cores, cabeça. Às vezes cismava que a moleira estava muito baixa. Quando ela acordava, obrigatoriamente tinha que ser eu a atendê-la sempre. Achava inadmissível que não fosse eu a primeira pessoa que ela visse assim que ela abrisse os olhos. E também tinha que ser eu a fazê-la dormir. E tinha que ser eu quem a carregava no colo. E quando íamos a alguns lugares, coisa que eu detestava porque não queria que ninguém a segurasse, era eu também que a segurava firmemente em meus braços para que ninguém a tirasse de mim. Inventava que tinha que amamentar, só para ir a um quarto sozinha com ela.

Na época, eu achava que estava a protegendo. Nem ao menos passava pela minha cabeça que não eram comportamentos e sentimentos saudáveis. O fato de ser psicóloga em nada ajudaria, visto que jamais poderíamos nos autoanalisarmos com essa exatidão. Hoje é mais fácil dizer porque estou de fora, e também porque vejo a minha relação com a Isabela. Eu sentia uma angústia muito grande, um aperto no peito. Em hipótese alguma eu conseguia dormir enquanto a Valentina não estivesse dormindo. Eu tinha a convicção de que se eu tirasse os olhos dela, alguma coisa iria acontecer.

Para completar a situação, escutei minha mãe me alertar para o sapinho. Ela disse: “só mães porcas deixam os filhos terem sapinho.” Foi aí que eu virei a louca do álcool gel. Passava álcool gel em tudo e em todos. Incrível como essas frases nos afetam no puérperio. Acontece que mesmo com todos os cuidados, Valentina teve sapinho. Eu poderia pensar que afinal de contas, não se pode controlar tudo! Mas não, eu pensei que ainda não tinha feito o melhor que podia.

Eu havia que eu mesmo iria curar o umbigo da Valentina para ter certeza de que seria feito do jeito certo, apenas com álcool 70. Mesmo fazendo tudo direitinho, como havia aprendido, o umbigo nela só caiu com 17 dias e ainda desenvolveu uma hérnia umbilical.Quando alguém vinha nos visitar, duas perguntas eram frequentes: Se ela estava mamando bem e se o umbigo havia caído. Nenhuma das coisas acontecia,  que fracasso de mãe eu sou, pensava.

Mas pensar essas coisas e me condenar não ajudava em nada, só me fazia me sentir pior e perdida. Eu resolvi ir ao banco de leite e contrariar a indicação de dar leite artificial para a Valentina. Era incabível! Eu tinha tanto leite, porque eu não poderia amamentá-la? Finalmente lá alguém me ouviu e entendeu que o excesso de leite dificultava a ‘pega’ correta do seio. Por isso, nos primeiros dias, não deixe de procurar ajuda profissional com a amamentação.

Quando temos o primeiro filho, sentimos que não temos controle de nada. Não sabemos se a criança está com fome, com frio, com calor e os palpites indesejados só atrapalham. A verdade é que realmente não temos controle dessa nova vida, e será assim enquanto ela viver. Mas lidar com isso não é fácil nos primeiros dias. Tinha vontade de voltar a Valentina para minha barriga só para protegê-la um pouco mais.

Eu não acho que a mãe nasce quando o bebê nasce. A mãe vai nascendo aos poucos. A mãe vai nascendo no primeiro choro, no primeiro sorriso. A mãe nasce quando descobre que quase nunca sabe o que fazer. A mãe vai nascendo quando chora na hora da vacina, quando vê seu coração despedaçado por não conseguir aplacar uma dor e nem conter a primeira febre. A mãe nasce bem devagarinho… A mãe pode nascer quando decide ficar em casa. Pode nascer também quando precisa ir trabalhar e percebe que é difícil suportar um mundo sem estar o tempo todo com os olhos no seu rebento. A mãe nasce nas madrugadas amamentando, ou apenas olhando o rosto inocente de seu anjo dormindo. A mãe nasce em uma birra quando todos olham com aquele olhar atravessado e ela não sabe o que dizer. A mãe nasce no arrependimento e na impotência de não conseguir fazer tudo certo. A mãe nasce quando ela descobre que pode amar muito mais alguém do que ela própria.

Quando a Valentina nasceu, se eu pudesse ir lá na minha casa e me receber eu diria para mim mesma que tudo vai dar certo. É normal chorar nos primeiros dias, é normal ficar sem chão, é normal ir para o banheiro só para ficar um pouco sozinha. Eu diria para não me recriminar, para aceitar minhas fraquezas e confiar nos meus instintos maternos. Diria que dar banho não é um bicho de sete cabeças. Eu queria que alguém tivesse me dito que ninguém acorda sabendo ser mãe, aprendemos sendo. Eu queria que alguém tivesse me dito nos primeiros dias que eu não preciso ser perfeita para ser uma boa mãe.

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