Quadro de medalhas para crianças: reforço positivo

Quadro de medalhas e o reforço positivo

Essa semana resolvi lembrar que eu sou psicóloga, com orientação em Terapia Cognitiva-Comportamental (TCC) e pensei: – Por que não colocar alguns conceitos em prática? É muito difícil para quem está vivenciando a situação identificar comportamentos disfuncionais, mas decidi compartilhar essa situação porque acredito que pode ajudar muitos pais.

Não é novidade que a Valentina sempre teve problemas para dormir. Mas até que ponto isso é responsabilidade dela? Até que ponto eu reforcei essa situação? As crianças nascem sabendo dormir? Qual foi o meu papel na continuação desse comportamento? Pensando nisso, identifiquei a situação e elaborei um plano que foi mudado no seu percurso. Mas para isso preciso explicar alguns princípios básicos de forma bem simples para que vocês possam entender o “tratamento”.

Em regra, comportamentos reforçados tendem a continuar e comportamentos punidos tendem a se extinguir. Existem dois tipos de reforço (positivo e negativo) e dois tipos de punição (positiva e negativa). Um erro comum é associar as palavras positivo e negativo como bom e ruim, mas na psicologia não podemos entender dessa maneira. Entenda positivo como adicionar e negativo como subtrair, isso vale tanto para o reforço quanto para a punição.

Reforço

O reforço é um conceito chave no campo da análise comportamental. Primeiramente foi definido por B.F. Skinner e depois ampliado por outros autores. O reforço é algo que aumenta a frequência de um determinado comportamento. Existem dois tipos de reforço, reforço positivo e negativo. É importante lembrar que não existe reforçador universal, o que é reforçado para um indivíduo não necessariamente é para outro. Às vezes os pais acham que estão reforçando um comportamento, mas não estão. Isso porque o reforçador não é adequado ao filho.

Reforço positivo

Como disse acima, quando falamos em positivo estamos nos referindo a adicionar, sendo assim, o reforço positivo é um estímulo que adicionado ao ambiente aumenta as chances de um comportamento voltar a ocorrer.

Ex: um filho é parabenizado pelo pai quando ele estuda. Nesse caso, o estímulo parabenizar aumentará a frequência do comportamento estudar. Dizemos que o comportamento do filho estudar foi reforçado.

Reforço negativo

Seguindo a mesma lógica, o reforço negativo é a subtração de um estímulo, e  consequentemente aumentará a frequência do comportamento. Esse tipo de reforço costuma ser mais difícil de entender.

Ex: O barulho de uma televisão alta atrapalha uma criança a estudar, isto é, é um estímulo aversivo. Quando esse estímulo é retirado (barulho alto), tende a aumentar a frequência do comportamento (estudar).

Para exemplificar o Reforço, a imagem abaixo é um exemplo clássico de como reforçamos comportamentos indesejados. Isso acontece principalmente quando estamos em locais públicos e cedemos às birras e ao choro, reforçando a criança dando algo para ela.

reforço positivo

Punição

É um estímulo que inserido ou subtraído diminui a frequência de um comportamento. Assim como no reforço, existem dois tipos de punição: positiva e negativa.

Punição positiva

Ao adicionar um estímulo em um ambiente, o comportamento tende a diminuir a sua frequência. Ex: Uma criança está subindo em cima de uma mesa e uma mãe pune corporalmente (bate), a criança tende a diminuir a frequência do comportamento. Saiba dos malefícios da punição corporal clicando aqui => Por que não devo bater no meu filho? <=

Punição negativa

Ao subtrair um estímulo de um ambiente, o comportamento tende a diminuir a sua frequência. Ex: A criança está brincando e  agride um coleguinha, o pai retira a criança do local. A retirada da criança tende a diminuir a frequência do comportamento agredir.

Extinção

A extinção ocorre quando um estímulo condicionado para de provocar uma determinada resposta. Assim, segundo Moreira e Medeiros¹ (2007, p. 38) a

“resposta condicionada pode desaparecer se o estímulo condicionado for apresentado repetidas vezes sem a presença do estímulo incondicionado”.

Ex: Uma criança sempre grita em lojas solicitando brinquedos e em seguida para conter a criança os pais cedem e dão o brinquedo, reforçando assim o comportamento de gritar. Seus pais começam a ignorar completamente o comportamento: não punem e não reforçam. Dessa maneira, acontece a desassociação entre o grito e ganhar presente, e o comportamento de gritar tende a ser extinto. (Claro que como mãe eu garanto que não acontecerá na primeira, nem na segunda ou terceira vez, é necessário uma consistência.)


Certo, após essa breve explicação (que não tem pretensão de substituir nenhuma literatura),  vou falar sobre o meu caso particular. Valentina tem 3 anos e 4 meses e não dorme bem, sempre teve muitos problemas para iniciar o sono e para mantê-lo também. Comecei a pensar nas situações em que ela acordava e percebi que ela tem o hábito de sempre chorar quando acorda, em qualquer horário. Seja nos cochilos ou durante a noite. Nós sempre prontamente corremos para o quarto, mesmo quando ela ainda não chorava. Eu tinha a ideia fixa de que a Valentina não poderia ficar sozinha e que eu tinha que ser a primeira pessoa que ela visse quando abrir os olhos. Eu já disse que sou totalmente contra deixar um bebê chorar, acontece que a Valentina não chorava, mas eu a condicionei que quando ela acordasse imediatamente eu a pegaria no colo. Eu a reforcei para que ela me esperasse no quarto. Passando um tempo, ela começou a gritar quando eu demorava um pouco mais. Eu comecei a ir mais rápido para impedir o grito. Obviamente não consegui manter essa situação por tantos anos, principalmente depois que a Isabela nasceu. O resultado era uma menininha que gritava durante a noite, chorava nos seus cochilos e ficava irritada o dia todo. Eu percebi que ela gritava até dormindo, sonhando que eu não estava lá.

Mas demorou muito tempo para que eu entendesse esse reforço. Depois que identifiquei, decidi que iria extinguir esse comportamento, ainda não sabia exatamente como, mas sabia que o comportamento de gritar necessitava ser ignorado.

Disse para a Valentina quando ela foi cochilar depois do almoço que a porta ficaria aberta e quando ela acordasse eu a estaria esperando na sala. Foi desastroso, ela chorou e gritou por mais de meia hora. Não queria ignorá-la, queria ignorar o comportamento. Nessa meia hora fui várias vezes até a porta do quarto dizendo que eu a estava esperando lá na sala. Vendo que eu não cederia ela foi. Quando uma criança percebe que algo que ela já estava acostumada não acontecerá, ela aumentará a intensidade do comportamento e é aí que muitos pais cedem e reforçam a ideia de que de fato, é só ela chorar mais alto para ser atendida.

No segundo dia os gritos continuaram na mesma medida e decidi que o comportamento iria ser punido. Disse a ela que se ela continuasse gritando eu iria guardar suas barbies. Ela continuou gritando e eu disse que iria guardar o fogão. Ela continuou gritando e eu disse que iria guardar as panelinhas também e ela enfim parou. Guardei tudo e disse para ela que se ela não gritasse da próxima vez eu devolveria os brinquedos.

Não resolveu, continuou gritando. Até que eu percebi que o meu foco estava na punição! E não é isso que fazemos o tempo inteiro? O controle aversivo é comumente usado conosco o tempo todo e nossa tendência é reproduzi-lo. Por que não temos um sistema que abate o IPVA por exemplo para reforçar o comportamento de um condutor não receber multas? Não, não é isso que temos. Temos multas apenas para punir o comportamento, mas não existe reforço para aumentar a frequência do comportamento desejado. O que acontece? Se não tem radar o condutor acelera o carro. Mas é muito mais fácil punir do que reforçar, mas até que ponto é efetivo?

Veja bem, a minha ideia era retirar os brinquedos da Valentina (punição negativa) e se ela não chorasse eu devolvia os mesmos brinquedos que ela sempre teve. Animador, não é? A verdade é que fazemos isso todo o tempo com nossos filhos.

Pensando em mudar isso, resolvi fazer um Quadro de Medalhas para a Valentina. Disse para ela que nós faríamos um quadro juntas e que ela ganharia uma medalha cada vez que ela acordasse sem chorar e fosse lá para sala. Ela me ajudou a escolher as medalhas (Minnie) e a cor da cartolina (amarelo, sua cor favorita). Decidi que começaríamos por três medalhas, porque é fácil para ela assimilar. Um número inalcançável para uma criança não é reforçador. Colei florzinha na cartolina para poder colar a medalha em cima, para que ela entendesse quanto estivesse faltando. Depois escolhi o reforçador, escolhi um desenho que ela gosta muito de assistir mas que eu não gosto. Mas assistindo com ela e fazendo as devidas observações não teria problema. Colamos também uma figura do desenho.O quadro foi colocado em um local visível, para que ela também obtivesse reforço social ao mostrar para as pessoas. Após os três anos as crianças já possuem habilidade cognitiva para entender e esperar o alcance de medalhas. Mas essa idade pode variar de criança para criança.

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É importante que as regras fiquem claras para a criança. Escolha um comportamento por vez, não queria que a criança se torne outra de um dia para outro. Não fique lembrando a criança o tempo todo da medalha tentando suborná-la com tudo o que ela faz. E principalmente, seja firme e só reforce quando o comportamento for atendido.

A mudança no comportamento da Valentina foi gritante. Fizemos o quadro no domingo e ela já atingiu uma vez o objetivo e agora falta apenas 1 medalha. Continuo ignorando o comportamento de gritar quando ele acontece, mas sua frequência diminuiu consideravelmente. É claro que um comportamento repetido por mais de três anos não se extinguirá em tão pouco tempo, mas sem nenhuma dúvida seu sono noturno melhorou. Ela dormiu por várias noites sem acordar e quando acorda, não chora e não acorda a irmã. Foi apenas uma mudança de perspectiva, o objetivo era o mesmo, mas sempre podemos mudar a forma de alcançá-lo. Como disse anteriormente, é muito mais fácil punir do que reforçar. Mas não devemos viver em uma praça de guerra com nossos filhos. Existem maneiras mais fáceis de lidar com o mesmo comportamento indesejado. Mas atenção na escolha do estímulo reforçador, evite presentes e bens materiais, muitas vezes um passeio, fazer um bolo, ou ter um tempo especial com a criança serão suficiente. Não esqueça também de que o reforço é para a criança, e não para você. Não adianta escolher algo que não é reforçador, pode ter efeito contrário.

Finalizo esse texto salientando que minha intenção foi falar de uma forma clara e simples de conceitos abstratos e complexos, sei que eles não estão escritos com linguagem acadêmica, mas minha intenção foi aproximar os pais desses conceitos e  lembrá-los que existem outras formas de conduzir uma vida familiar sem deixar de educar nossos filhos.

 Ps: É muito mais fácil impedir um condicionamento do que extingui-lo. Por isso estimulo Isabela a permanecer sozinha em um ambiente e sempre que ela acorda eu espero um pouco e só depois abro a porta pra que ela saia sozinha engatinhando.

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