Relato de parto normal com distocia de ombro

Não estou mais na quarentena, hoje faz 41 dias do meu parto e só agora me sinto um pouco mais confortável para fazer esse relato. Esperei esses quarenta dias por dois motivos. Gostaria de falar também da recuperação porque sei que isso é algo que quem pretende fazer um parto normal quer saber. Além disso eu não queria falar de algo que me emocionará enquanto eu escrevo e que provavelmente será motivo de muitas críticas no meu “resguardo”.
Começo dizendo que se você não tolera realidade e se prefere ler relatos românticos e perfeitos pare de ler agora.

Eu tive uma cesariana, um parto normal tranquilo e esse último com intercorrências no caminho. Esse foi sem dúvida o mais difícil, mas todos sem exceção foram lindos porque me trouxeram o que tenho de mais precioso nesse mundo: minhas amadas filhas.

No dia 26 de abril eu não acordei pensando que esse seria o dia em que Sophia nasceria. Como sempre tenho um período de pródromos longos, minhas cólicas não indicavam um trabalho de parto eminente. Eu não havia perdido o tampão e por isso achava que talvez demorasse um pouco mais, inclusive me preocupava com a possibilidade de não entrar em trabalho de parto.
Na semana anterior estava com 39 semanas e 1 cm de dilatação e agora por estar nas 40 semanas deveria acompanhar mais de perto.
Mesmo possuindo plano de saúde decidi que Sophia nasceria no Hospital Municipal de Uberlândia. Quando não há a disponibilidade financeira para pagar o parto particular o obstetra é Hospital Municipal aqui em Uberlândia é melhor opção para tentar um parto humanizado.
Com 40 semanas e 1 dia fui fazer o acompanhamento de rotina de pós-datismo. Estava disposta a esperar até 41 semanas, não mais que isso. Fizemos o exame de toque e agora estava com 2cm, a obstetra de plantão realizou o descolamento de membranas para estimular o trabalho de parto. Fizemos também um cardiotoco e um exame de ultrassom (estimativa de peso de 3700kgs). Estava tudo certo em todos os exames.
Após os exames o turno havia virado, era por volta de 15 horas e essa obstetra realizou outro exame de toque, dessa vez com 3cm.

Agora sim, tudo indicava que as coisas estavam caminhando. Estava sentindo cólicas fracas, em uma escala de 0 a 10 eu pontuaria as cólicas em 1, se fosse avaliar a dor eu não pensaria que estava com 3cm. Ainda assim eu ainda não estava em trabalho de parto ativo, poderia estagnar nesses 3cms. Por isso a médica solicitou que eu retornasse ao hospital às 18hrs para avaliar a evolução.
Fui para casa, liguei para minha mãe e pedi para ela levar as meninas para casa dela. Mas eu achava que Sophia não nasceria naquele dia porque não estava sentindo dor, inclusive falei isso a ela. Tomei um banho tranquilo, me despedi ainda sem acreditar da barriga.Lavei meu cabelo, sequei e enrolei um pouco. Tiramos a que poderia ser a última foto da barriga. Chegamos no hospital já era pouco mais de 19hrs e precisei esperar. Fui atendida por volta das 20hrs e agora estava com 4cm. É, realmente agora deslanchou. Postei uma foto com nossas mãos na barriga. Sophia iria chegar em breve! Eram 21horas agora. A dor poderia chegar a 2, talvez 3. Mais fraca que uma cólica menstrual. Ainda assim, a médica achou melhor solicitar minha internação por eu já ter um parto normal.

Eu estava em um centro de atendimento à gestante, deveria ir para o Hospital Municipal de ambulância. Junto comigo iria outra gestante que estava com 6cm e por isso me avisaram que a ambulância iria mais rápido. Foi horrível! Eu nunca tinha andado de ambulância, fiquei muito enjoada! A moça já estava sentindo dor e minha dor começava a ficar desconfortável. Mas nada que respirar fundo não ajudasse. Chegamos no hospital muito rápido, estava MUITO MUITO MUITO frio nesse dia. Fiquei esperando na recepção a primeira moça ser avaliada, acho que entrei na sala de avaliação de toque 22horas aproximadamente. Tive que colocar a camisola e apesar do frio estava tudo sob controle. Mal acreditei quando após terminar o toque o médico disse que eu estava com 7cm! Caramba! Será que esse parto seria assim? Quase indolor? Ele perguntou se eu não estava sentindo dor. Os médicoa entravam e perguntavam se eu não estava com dor. As enfermeiras comentavam entre si e eu sentadinha na maca aguardando para ir para o quarto. Sentia as contrações vindo de 5 em 5 minutos, respirava e deixava a dor vir e sair. De 0 a 10 eu avaliaria a dor em 4, nada se comparado ao último parto. Com 7cm eu já não sabia como aguentar a dor. E eu lá, sentada, balançando as perninhas e olhando o barrigão. Escutei alguém que parecia estar no expulsivo… Gelei! eu não achava nada fácil apesar de mágico esse momento. Quanto tempo demoraria para ser a minha vez? Olhei o relógio e pensei que Sophia não nasceria no dia 26. Provavelmente na madrugada do dia 27 cogitei…
Pensava no expulsivo, em concentrar. Queria dessa vez não ter laceração, almeja por isso.

Fui para o quarto e um pouco depois o Alexandre chegou. Me ofereceram a bola, mas eu estava muito confortável sentada na cama. Perguntaram se eu não queria ficar no chuveiro e eu não quis porque estava muito frio… E na hora de sair do chuveiro?! Não. Vou ficar sentada. Coloquei minha playlist, comecei a cantar tranquila. Mas… Como que se apertasse um interruptor comecei a ter contrações muito dolorosas. A música me irritou. Sentar não estava legal. Levantar também não. É, meu parto não seria indolor. Olhei para o relógio, eram 23horas.

Sophia nasceria em menos de meia hora, mas eu não sabia. Levantava, sentava, tentava fugir. Agarrava o Alexandre a cada contração. Chamava ele para segurar em seu pescoço. 1 minuto interminável de contração de uma dor que ia acima do dez, uma pausa que não chegava a 30 segundos e mais 1 minuto de contração. Meu Deus… Eu não vou aguentar. Eu sempre acho que não vou aguentar. Mas o que era aquilo?! Eu estava tão bem dez minutos atrás. A obstetra que estava aguardando percebeu o movimento e veio avaliar novamente. 8cm! Transição. Sabia!
“Eu vou estourar a bolsa, ok?” “Não!” Lembrei do meu último parto. Me senti exposta quando estouraram minha bolsa. “Mas vai demorar mais.” “Não tem importância.” Levantei com dificuldade, já tinha meses que sentia muita dor no nervo ciático. Assim que levantei sentei a bolsa estourar, brinquei dizendo que tinha vivido a experiência de uma bolsa estourando. Perguntei se a cor estava normal, ela disse que sim. Que frio… Agora estou toda molhada, caiu em meu pé também. Ficar andando com esse chinelo sujo não vai ser legal! Calculava que teríamos aí uma hora, talvez duas. O ritmo das contrações continuava intenso e parece que o frio agrava. Estava tremendo, não conseguia relaxar. Sentia meus músculos tensos. Pedi para o Alexandre ir comigo no chuveiro para ajustar a água pra eu lavar minha perna e chinelo. Enquanto ele ajustava eu senti ela vindo, sentia vontade de fazer força. Fui dos 8cm aos 10cm em 5 minutos. Amor, quero fazer força. Ele arregalou os olhos! Não conseguia me concentrar, acho que ele falou algo como “já vi essa história, ela vai nascer agora”. A enfermeira acreditou nele. Chamou de volta a médica, pediram para eu deitar na cama novamente para verificar se a dilatação estava mesmo em total.

Sophia estava coroada. O procedimento de praxe do hospital seria me levar para o centro cirúrgico, mas não havia tempo. A pediatra não ficou feliz, estava muito frio no quarto e ventava. Tentaram fechar as janelas. Todos a postos! O pior já tinha passado, eu pensei. Isabela tinha praticamente escorregado. Mas dessa vez não foi assim.
Contração veio, força, quase foi. Segunda contração muita força, pronto… A cabeça saiu. Senti o períneo íntegro. Conseguimos! Pronto, agora é só o corpinho e Sophia estará comigo. Contração, força, ela não vem. Contração, força, ela não vem. Mais uma. Outra. “Gente, ela tá presa! Me ajuda. Gente, ela não sai! Por que ela não sai?” Vi o terror nos olhos da equipe. Vi o terror nos olhos do meu marido. Vi o medo me abraçando. Distócia de ombro. Eu sabia o que era isso… Mas não achava que aconteceria comigo. Sabia que Sophia deveria sair em cerca de dez minutos para não ter uma lesão cerebral. Por algum motivo ela não conseguiu girar e seus ombrinhos ficaram presos. Não há uma relação causal totalmente certa sobre o que leva à distócia de ombro. Acontece, mas você não acha que fará parte das estatísticas.
Eu queria que não fosse comigo. A essa altura a dor já estava lacinante e eu temia desmaiar. Nessa hora a enfermeira pediu pada o Alexandre dar licença. Essa enfermeira teve um papel fundamental no nascimento da Sophia. “Sua filha precisa de você, concentra na sua filha.” E então as contrações que estavam tão seguidas se espaçaram. E se não viesse nenhuma contração? Mas veio. 🙏🏻 Poderia vir outra só daqui dez minutos. E foi então que eu coloquei minha vida ali. Fiz a maior força que poderia e diante de dor e desespero eu gritei, gritei, gritei. Era a única forma de conseguir não prender a força na garganta. Sophia precisava de mim, da minha face animal. Durante dias escutei meus gritos, fecho os olhos e lembro. Enquanto isso uma manobra era realizada pela equipe.

Então Sophia nasceu. Veio escorregadia em cima do meu corpo… Mas não mechia, não chorou. Eu desesperei. A Pediatra disse que precisaria levá-la. Antes dela sair do quarto escutei seu choro muito vivo… Meu coração se acalmou. Pedi para o Alexandre ir junto com ela.

Sophia estava bem, não precisou ficar em observação. Pouco mais que 4kgs, nenhuma lesão na clavícula. Ninguém pode imaginar o que passamos ao olhar pra ela. Eu por outro lado tive uma laceração de terceiro grau, a mais temida entre as mulheres. Só soube que tinha sido tão severo depois dos inúmeros pontos (não me perguntem quantos, não faço ideia). Fui para a observação ainda muito abalada e encontrei a moça que veio comigo na ambulância. Diferente de mim ela teve períneo íntegro, não invejei… Mas estava debilitada demais pra falar sobre mim. Quando fui para o quarto a primeira coisa que fiz foi chorar muito. Não pela dor física, mas pela possibilidade de que tivesse acontecido algo com Sophia. Será que o parto normal foi mesmo a melhor opção? Martelava minha cabeça. Cogitei não falar pra ninguém sobre o meu parto. Desacreditei do parto normal naquela madrugada. Desacreditei um pouco de mim também, do meu senso crítico.
Mas não existe nada melhor do que um outro dia…

Sophia mamou bastante colostro e dormiu boa parte da madrugada. Tomei remédio para dor e não conseguia dormir. Eu estava muito angustiada e comecei a pesquisar sobre distócia, sobre laceração.

Fora o susto, Sophia nasceu perfeitamente bem. Não teve nenhuma lesão e por isso posso dizer que deu tudo certo. 🙏🏻 Minha preocupação com a laceração de 3º grau no final não foi relevante porque no segundo dia já estava muito bem. Inclusive nas fotos do hospital eu estou sentada de “indinho”. O que jamais poderia ser feito no meu pós-parto da cesariana. Esteticamente, se é que posso usar essa palavra… O períneo só voltou completamente com 30 dias. Não tive problemas com incontinência e queda de períneo. Não carreguei peso e evitei andar muito nos primeiros trinta dias. Acredito que o pilates que fiz no final e os exercícios com o períneo que continuei fazendo foram muito importantes.

Li vários artigos e procurei sobre relatos. Diferente do que o senso comum diz, a distócia é algo imprevisível e poderia acontecer com bebês de todos os pesos. As chances aumentam em bebês com peso maior que 4,500, o que não foi o caso. Não foi culpa minha, não foi culpa da obstetra. Em todo parto pode acontecer complicações, mas saber dessas possibilidades foi fundamental no desdobramento. Eu sabia das manobras posteriores, sabia que era imprescindível minha concentração e força. Se eu tivesse me desesperado ela não nasceria. O que acontece é que todo parto é imprevisível, a vida é. Mas nós não queremos saber isso quando lemos relatos de parto ou quando assistimos vídeos lindos de partos. Eu mesma nunca li um relato de parto de algo que deu errado, porque as pessoas não querem falar disso. Nós não queremos saber do incerto, achamos ele feio, temos vergonha porque achamos que é nossa culpa destoar tanto do que é definido como belo. Mas belo, é o real. Eu mesma cogitei guardar tudo pra mim. No fundo somos prepotentes por acharmos que podemos controlar o universo e que se algo não sai como planejado é nossa responsabilidade. Por tudo isso é que decidi expor minhas frustrações porque elas são advindas de altas expectativas. Precisei de 40 dias para elaborar tudo isso. E hoje se me perguntassem se eu faria um parto normal eu digo que faria sim, mas agora sem tantas expectativas e muito mais preparada para a realidade. É provável que apareçam pessoas dizendo que estou desestimulando mulheres a terem seu parto normal. Eu discordo totalmente, meu papel aqui sempre foi dizer a verdade e não poderia ser diferente agora. A verdade pode ter inúmeros significados para cada pessoa, mas ainda assim não acho que ela deva ser escondida ou mascarada.Acho que quando algo difícil acontece ou você se esconde ou se fortalece. Eu fiquei mais forte e acredito que transmitir esse relato pode fortalecer muitas mulheres. Nós não somos o sexo frágil, nós não somos mãezinhas, nós somos leoas… Somos bicho se precisar. E sempre podemos ir mais longe do que pensamos.

2 thoughts on “Relato de parto normal com distocia de ombro

  1. Tatiani

    Te admiro muito por toda sua força e coragem!
    Parabéns pra vc e por suas lindas filhas.
    Que Deus continue abençoando cada vez mais sua vida e familia.
    Beijo

  2. Michele

    Minha filha faleceu em um parto com distocia de ombro :(
    Nunca tinha ouvido falar dessa complicação, é bem o que você disse, que só queremos ver o lado bom… Infelizmente rola muita lavagem cerebral para o parto romantizado, lindo …
    Enfim , mês que vem vou ter minha outra filha, seja o que Deus quiser… Ainda não sei se será parto normal ou cesária! É uma angústia.. só ficarei tranquila com a minha bebê no colo

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