Ritos e a estabilidade emocional da criança

É preciso ritos! Como desenvolver a estabilidade emocional da criança

Por

Carolina Faria Arantes

CRP 34041/04

Mestre em Psicologia da Saúde – Processos Cognitivos / UFU

Especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental / UFU

Pesquisadora na área da Prevenção e Tratamento de crianças, adolescentes e orientação de pais.

Psicoterapeuta, professora e supervisora no Instituto Integrare – Uberlândia/MG

Contato: carolfariaarantes@gmail.com ou carolina@integraretcc.com.br

Site: www.psicologauberlandia.com

Página Facebook: Psicóloga Carolina Arantes

Instagram: @psico.carolina.arantes

A história de Antoine de Saint-Exupéry, O Pequeno Príncipe, é a terceira obra literária mais traduzida no mundo e já foi publicada em 160 idiomas e dialetos. No Brasil, a obra vende cerca de 300 mil exemplares por ano (Wikipédia; Folha de São Paulo). Quem conhece a história sabe que ela é composta por uma série de “ensinamentos”, repletos de sutileza e poesia. Esses ensinamentos visam levar o leitor a refletir sobre diversos comportamentos automatizados que os adultos desenvolvem com o passar dos anos, mas que são prejudiciais para a qualidade das relações interpessoais, especialmente com as crianças.
Hoje venho falar com vocês sobre um desses ensinamentos, que se encontra no capítulo em que o Pequeno Príncipe conhece a raposa:

“Teria sido melhor voltares à mesma hora, disse a raposa. Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração… É preciso ritos”. (Antoine de Saint-Exupéry – O Pequeno Príncipe).

E é sobre isso que fala o texto de hoje, sobre a importância dos ritos no desenvolvimento emocional do seu filho. Não estou usando essa palavra como um sinônimo de “rotina”, na verdade, o rito vai mais além. A rotina se relaciona com a sequência de tarefas e atividades que as pessoas desempenham ao longo do dia. Estabelecer uma rotina diária é fundamental para a criança aprender a ter disciplina e organização, mas isso será tema de outro texto.
O rito também tem relação com as tarefas/atividades a serem realizadas, mas principalmente com suas consequências. Ele está relacionado ao efeito obtido pela criança quando ela se comporta de uma maneira específica. Por exemplo, se todas as vezes que a criança chora seus pais se voltam para ela, carinhosamente, e lhe perguntam o motivo do choro, ela entenderá que sempre que estiver triste seus pais estarão disponíveis para ouvi-la; se todas as vezes que a criança tem um comportamento inadequado (xingar, gritar, agredir, etc), seus pais lançam mão de tempo para lhe explicar firmemente o quanto aquele comportamento é errado, a criança entenderá que esse tipo de comportamento resultará em “bronca”, castigo e insatisfação dos pais.
O rito gera segurança e estabilidade emocional. Ele faz com que a criança saiba o que esperar a partir de seus comportamentos, ele dá o “norte” necessário para que ela consiga escolher a melhor forma de se comportar em determinada situação. Conseguir prever o tipo de reação que os pais terão diante de um comportamento específico gera tranquilidade e confiança.
A sensação de segurança e estabilidade é uma necessidade emocional básica para o desenvolvimento saudável da personalidade do indivíduo. Crianças que vivem em ambientes instáveis, onde as reações dos pais são imprevisíveis (por exemplo: têm ataques de raiva, são negligentes em alguns momentos, fazem ameaças com frequência) tendem a se tornar adultos inseguros, com constante expectativa de abandono. É como se eles vivessem sempre com a sensação de que, a qualquer momento, as pessoas importantes em sua vida vão parar de lhe proporcionar apoio, proteção, amor. Isso gera consequências graves nas relações do indivíduo, especialmente quando se trata de relacionamentos afetivos.
Os pais têm papel fundamental na satisfação dessa necessidade básica da criança: a estabilidade emocional. É através dos ritos que eles fornecem segurança ao filho, pois este entende quais são as regras, o que se faz e o que se recebe. Quando os pais, diante de um mesmo comportamento da criança, ora brigam, ora a elogiam, ora a ignoram, eles estão sendo imprevisíveis, instáveis, e estão gerando insegurança e dúvida no filho.
Infelizmente, não é raro ver uma criança chegar perto dos pais com empolgação para lhes mostrar algo e estes não lhe dar atenção, ou até brigar com a criança. No entanto, em outra ocasião (geralmente quando estão mais descansados e bem humorados) os mesmos pais pedem que a criança lhes mostre o que ela está fazendo. Na primeira situação, a criança entenderá que é melhor não mostrar seus desenhos, brincadeiras, dentre outras coisas, para seus pais, pois eles não estão disponíveis; no segundo momento ela vai tirar outra conclusão: “meus pais se interessam por mim e pelo que eu faço!”. Se esta variação parasse por aqui, tudo bem, mas em grande parte das vezes ela se perpetua. O padrão de interação instável é que gera o problema. Comportamentos como esses, repetidos ao longo da infância, têm como efeito a imprevisibilidade, insegurança, desorientação. Eles fazem com que a criança se sinta perdida, sem saber o que pode acontecer diante de seus comportamentos.
E o que os pais devem fazer para não deixarem que este padrão de inconstância se instale em sua família?
É muito simples e muito difícil, ao mesmo tempo. Na teoria é fácil: é preciso ser claro nas orientações e consistente ao cumprir combinado. Porém, na prática, os pais precisarão respirar fundo muitas vezes, passar por cima do seu cansaço, indisposição, sofrimento, etc. Abaixo, alguns passos necessários para que os pais consigam estabelecer uma interação saudável e estável com seus filhos:

• Apresente regras claras ao seu filho

Para que a criança haja de acordo com sua expectativa, diga a ela claramente o que espera que ela faça. Quanto mais nova a criança, mais simples e curto deve ser o “comando”. Para que isso seja feito com o máximo de eficácia, alguns passos devem ser seguidos:
1) Fale o que deve ser feito – Abaixe-se à altura da criança, olhe em seus olhos e diga de forma calma e firme: “Filho, guarde seus brinquedos e vá tomar banho…”.
2) Explique de forma simples e rápida – “…porque assim eu termino de arrumar a casa mais rápido…”
3) Mostre as consequências – “… e então dá tempo de eu fazer aquele brigadeiro que você gosta.”
4) Apresente alternativa/auxílio – “Pode colocar todos os brinquedos naquela caixa e guarda-la atrás do armário”.
Dessa forma, a criança saberá qual deve ser seu comportamento e qual será o resultado obtido.

• Cumpra o combinado

Esta é a parte mais difícil e é onde está o grande problema no estabelecimento dos ritos. É muito comum os pais combinarem coisas com os filhos, mas devido ao cansaço e falta de tempo, não cumprirem. Isto é péssimo, pois não mantém o comportamento esperado, a palavra dos pais perde a credibilidade e a criança sente que não pode confiar nos pais.
É preciso ser consistente! Se você anunciou para seu filho que gritar e xingar tem como consequência não ir ao clube no final de semana, isso tem que acontecer, mesmo que o domingo amanheça um dia lindo; se o combinado foi que, se a criança fizesse a tarefa todos os dias antes de ir para a aula ela ganharia um passeio no shopping, isso deve acontecer, mesmo que você esteja cansado e sem a mínima disposição para andar. As consequências dos comportamentos da criança (sejam eles adequados ou inadequados) não podem depender do humor, disposição ou tempo dos pais, mas estarem de acordo com aquilo que foi combinado.
Isso é uma tarefa difícil, eu sei. Mas ninguém disse que seria fácil, não é? Para evitar problemas nesse sentido, pense bem antes de apresentar as consequências. Não prometa aquilo que não poderá fazer, seja para recompensar ou punir o comportamento. Não prometa um “super passeio”, se não tiver condições de fazê-lo; não faça ameaças muito drásticas (Ex. “Você vai ficar um ano sem vídeo-game”), porque é provável que você ceda.
Quando os pais são consistentes e mantêm sua palavra, os filhos os respeitam. Além disso, sentem segurança de que aquilo que os pais falam é verdade e acontece.

• Seja flexível

Ser flexível é tão importante quanto ser consistente. Portanto, você pode sim mudar uma regra e adaptá-la à situação. Por exemplo, seu filho comeu frutas todos os dias da semana, exatamente como vocês combinaram. Em troca disso, havia ficado combinado de vocês irem ao cinema, porém, você acordou muito gripada (o) no dia. Não é errado você conversar com a criança e explicar o porquê de não irem naquele dia, desde que você marque em outro dia (logo após a recuperação) e que de fato o leve.

• Sempre trate seu filho com respeito e amor

A maior e mais importante certeza que uma criança precisa ter é de que sempre será amada e respeitada pelos seus pais. Portanto, independente da situação, demonstre seu amor pelo seu filho. Gritos, tapas, “cara virada”, frieza não são demonstrações de amor e nem formas adequadas de punir o comportamento inadequado do seu filho.

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