Sobre o direito de ser criança – Parte 1

Direito de ser criança

Por

Carolina Faria Arantes

CRP 34041/04

Mestre em Psicologia da Saúde – Processos Cognitivos / UFU

Especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental / UFU

Pesquisadora na área da Prevenção e Tratamento de crianças, adolescentes e orientação de pais.

Psicoterapeuta, professora e supervisora no Instituto Integrare – Uberlândia/MG

Contato: carolfariaarantes@gmail.com ou carolina@integraretcc.com.br

Site: www.psicologauberlandia.com

Página Facebook: Psicóloga Carolina Arantes

Instagram: @psico.carolina.arantes

Algumas experiências que tive recentemente me motivaram a escrever este texto para vocês. Uma delas foi uma cena que presenciei em um shopping de minha cidade. Estavam sentados em uma mesa ao meu lado uma mulher (que supus ser a mãe da criança) e um garoto com cerca de oito anos de idade. Pareciam esperar por algo. A criança, que estava inquieta na cadeira, se levantou, entrou embaixo da mesa e começou a mexer em alguma coisa. A (suposta) mãe chamou sua atenção e o fez sentar-se novamente. Assim continuou por mais ou menos 5 minutos. Enfim, um homem (seu pai?) chegou à mesa com um balão de gás hélio, todo colorido, e o garoto ficou muito feliz. O homem se sentou junto à mulher, enquanto a criança se levantou e começou a brincar com o balão: andava para todos os lados, rodava e olhava, admirado, para seu novo brinquedo. Então, seus (supostos) pais o “convidaram” firmemente a se sentar e ficar quieto. Isso se repetiu mais umas três vezes, até que se levantaram e foram embora. Quando a cena se concluiu, o primeiro pensamento que veio em minha cabeça foi: “o único ‘erro’ que esse menino cometeu foi se comportar como uma criança”. E devido a esse erro, recebeu muitas “broncas”.

            Meu olhar sobre essa situação não é um olhar de julgamento, onde os pais são considerados vilões insensíveis. Acredito que talvez as famílias não tenham clareza sobre o que devem e não devem esperar de suas crianças, o que podem exigir e o que não podem deixar de respeitar. Talvez elas não saibam que, ao exigir “bom comportamento” de seu filho o tempo todo, elas estão impondo um padrão comportamental que não pertence à infância e prejudicando a espontaneidade da criança.

Por isso, venho hoje falar com vocês sobre as vezes que nós adultos, especialmente os pais, nos esquecemos de que a criança vive uma fase fundamental de sua vida, onde muitas habilidades ainda estão em desenvolvimento e, por isso, deve ser tratada de forma especial e respeitosa.

  • Expectativas irrealistas e imposições desrespeitosas

Conforme disse anteriormente, na situação descrita acima cheguei à conclusão de que a única falta daquela criança foi ter se comportado como criança. Em momento algum ela desrespeitou sua a mãe, pai ou qualquer pessoa ao seu redor, não esbarrou em ninguém por perto, mas, mesmo assim, foi obrigada a parar de brincar com seu balão e se sentar. A criança brinca e o brincar faz parte de todos os estágios do seu desenvolvimento. É claro que o tipo de brincadeira se modifica com o passar do tempo, se adequando à idade, mas o fato é que a criança brinca, a criança bagunça, ela não se importa se o volume da sua fala estará atrapalhando a pessoa ao lado, se o quarto está bem arrumado ou não. Isso não quer dizer que os pais têm que deixar a criança fazer tudo o que ela quer. É claro que os comportamentos que geram prejuízo para a criança ou para outras pessoas devem ser eliminados, mas é preciso aceitar que um pouco de bagunça, barulho e constrangimento é normal.

O garotinho do shopping não pôde brincar com seu balão, ao invés disso, teve que se sentar e reproduzir o comportamento de um adulto. Ele precisou fazer isso por quê? Para quem? Para os pais não se sentirem incomodados ou envergonhados? Para evitar que ele esbarrasse em alguém? Ou talvez nem haja um motivo claro, talvez seja apenas um hábito nosso de julgar todo comportamento da criança como errado e nos ver como aqueles que estão sempre certos e, portanto, ditam as regras. Não parece muito injusto exigir que a criança deixe de se comportar espontaneamente, conforme sua idade, para se adequar aos padrões comportamentais dos adultos?

  • A perda da espontaneidade

Além de ser um grande desrespeito à infância, esse tipo de atitude dos adultos pode gerar consequências prejudiciais ao desenvolvimento da criança. Como eu disse anteriormente, brincar, dançar, pular, cantar, falar alto, dentre outros comportamentos típicos da infância (e que são muitas vezes punidos pelos pais), são manifestações espontâneas. Essa espontaneidade é algo muito saudável e que precisa ser mantida e desenvolvida.

Quando uma criança é censurada continuamente por emitir esse tipo de comportamento, ela vai gradativamente deixando de apresenta-lo. Ela provavelmente irá perceber que “ganha mais” ficando quieta, falando baixinho, não reclamando, enfim, agindo de acordo com as expectativas dos seus pais. Assim, ela poderá desenvolver crenças (convicções, conceitos) de que demonstrar seus sentimentos e pensamentos de maneira espontânea é algo ruim, que não traz bons resultados.

Jeffrey Young, psicólogo que desenvolveu um longo estudo sobre os transtornos de personalidade, denominou esse tipo de funcionamento de inibição emocional. O indivíduo desenvolve na infância a crença de que é preciso controlar suas emoções, comportamentos e impulsos, a fim de evitar que sejam envergonhados e/ou criticados. A inibição emocional compromete o funcionamento saudável do indivíduo, tanto na infância quanto na vida adulta, prejudicando sua socialização e demais relações interpessoais.

  • Qual a melhor forma de manejar os comportamentos das crianças, sem desrespeitá-las?

Continua amanhã!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

You may use these HTML tags and attributes:

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>