Sozinha: um pouco de mim que quase ninguém sabia

Eu era sozinha, e gostava de ser assim

Por muito tempo eu estive sozinha. Não é que não tivesse gente ao meu redor, sempre tinha, sempre mais do que eu gostaria. Mas na verdade eu me sentia sozinha. E o que mais me intrigava é que cada vez eu gostava menos de estar com as pessoas. Quem me olhava sempre sorrindo, não podia imaginar a ilha da solidão em que eu vivia. Eu era uma ilha. Não deixava ninguém chegar. E tentaram, não posso dizer que não tentaram. Eu é que não deixava. Eu era inacessível.

Mas eu não sabia explicar o porquê daquilo. Eu só não me sentia à vontade. Entenda, eu não era triste, eu era sozinha. Morava sozinha, gostava do silêncio.

Mas alguma coisa me faltava, eu tinha um buraco negro no peito que ia me tragando por dentro. Eu era um pouco desbotada. Muito crítica, não dava risada por quase nada. Ironizava sobre gente que era feliz demais. Eu era meio cinza, faltava cor. Mas eu achava que era aquilo mesmo a vida. Acordar, tomar café, trabalhar, voltar pra casa, lanchar, ler e dormir. De vez em quando namorar, que era quando os meus dias tinham mais cor e mais vida. Eu não era infeliz, eu só era vazia. Mas eu gostava daquela vida. Achava que eu me bastava.

E então, aquela vidinha organizada mudou. Grávida. Grávida?! 10 exames. É, tô mesmo grávida. E então tudo mudou… Tudo mesmo, não estou floreando. Na verdade estou mesmo, é porque tudo ficou florido. Eu vi cores onde antes não via. Eu amei mais o pai daquele serzinho que morava em mim. Nossa, como meu amor cresceu e cresce a cada dia depois que o vi não só como homem, mas também como pai das minhas filhas. Caramba, eu vou ser mãe, pensava a todo instante.

Escutei o coração daquele bebê que teimavam em chamar de feto. Dois corações no meu corpo. Como alguém poderia se sentir sozinha com dois corações no corpo? Não sente. Não tem jeito. Depois, a vi naquela telinha de TV. Um narizinho, uma boca, duas mãos e dois pés dentro de mim. E esse corpinho começou a se mexer, e eu nunca mais me senti sozinha. Mas mais do que isso, eu não quis ser sozinha. Quis ter uma família… Quis escutar boa noite antes de dormir. Quis fazer macarrão no domingo. Quis viver em uma propaganda de margarina.

E foi ai que eu aprendi a não me amar em primeiro lugar. Aprendi a ser uma pessoa muito melhor. E me preocupo com o mundo, com as crianças, com a humanidade, com o sol, com a camada de ozônio. Eu, que era tão arrogante, comecei a querer aprender mais, entendi que eu não sabia nada. Eu, que não gostava do barulho, comecei a sonhar com gargalhadas de crianças.

Eu, que era tão eu, gostei de ser nós. Amei mais. Tive certeza que era amor. E aquele vazio encheu. Fiquei cheia, preenchida. Junto com a barriga, minha alma também enchia. E quando eu escutei aquele choro pela primeira vez, descobri que eu era infeliz, eu é que ainda não sabia!

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