Tolerância à frustração: porque ensinar?

Tolerância à frustração: ensinamento precioso às crianças

Por

Cíntia Marques Alves CRP-25718/04

Mestre em Psicologia Aplicada à Saúde, em Processos Cognitivos pela UFU. Especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental pela UFU. Psicóloga Clínica e supervisora no Instituto Integrare; e professora universitária na Faculdade Pitágoras.

Na faculdade, eu tive uma professora que sempre repetia: “precisamos ensinar as crianças a tolerar frustração”. À época, isso significava pouco para mim, mas com os anos de prática clínica, com as observações sociais e até mesmo com algumas experiências na minha vida particular, isso tem sido cada vez mais marcante.

Tolerância à frustração é a condição/capacidade de aceitar/de lidar com as circunstâncias da vida e enfrentá-las com uma atitude positiva, apesar de serem essas circunstâncias, nem sempre as mais desejadas por nós.

De modo geral, vivemos em busca daquilo que é agradável, bom, prazeroso e que nos gera bem estar. Por outro lado, evitamos entrar em contato com aquilo que nos é aversivo: dor, medo, tristeza, ansiedade, chateação, desgaste físico, rejeição. Aprendemos isso não só pelas experiências de vida, como também pela evolução da espécie: ainda bem que muitos dos nossos ancestrais evitaram perigos extremos e com isso, mantiveram-se vivos e nos deram a chance de estarmos aqui, enquanto espécie humana!

Mas infelizmente, temos selecionado excessivamente comportamentos de esquiva/fuga daquilo que nos é aversivo: não queremos entrar em contato com o que é minimamente desagradável/chato/difícil. Skinner (1987) diz que “aproximamo-nos de um estilo de vida livre de todos os tipos de coisas desagradáveis. Relutamos em aceitar não somente as restrições impostas por governos tirânicos e religiões, mas também a aceitar cintos de segurança, capacetes e sinais de proibido fumar, etc. Fugimos não só de extremos dolorosos de temperatura e trabalho exaustivo, mas também dos mais brandos desconfortos e incômodos”.

Com isso, não só perdemos a oportunidade de treinar habilidades para lidar com o aversivo, aumentando de modo adequado, em nós, a variabilidade comportamental, como também reforçamos, em nós, as crenças de incompetência e fragilidade frente às dificuldades e frustrações que nos cercam.

Desde cedo os bebês aprendem comportamentos pelos quais conseguem se livrar do desconforto, do incômodo, do “NÃO”! Em função de não frustrar os filhos e mantê-los felizes, a todo custo, alguns pais se perdem na tentativa de fazer muitas coisas por seus filhos, até mesmo, no lugar deles; querem atender e satisfazer não só às demandas reais, como a todos os desejos dos filhos. Alguns pais com discurso de compensar, nos filhos, a própria história de privação e sofrimento (aqui eu falo principalmente da satisfação material e da permissividade para comportamentos quaisquer; e não da satisfação afetiva: que constrói, educa e dá sentido à vida). É claro que tentar dar uma vida feliz e confortável aos filhos é necessário! É claro que não querer ver o filho sofrer é essencial! Óbvio! Mas há vida real desprovida de qualquer frustração e sofrimento? E na aprendizagem à tolerância à frustração não há possibilidade de felicidade?

Somada às questões individuais e familiares, temos uma cultura que cria em nós necessidades irreais e fazem uma parcela grande da população acreditar que “Eu preciso disso agora para ser feliz.” E essa crença “instituída” gera pessoas intolerantes às frustrações quando o “agora” não chega. Queremos tudo para ontem, do nosso jeito, sem dificuldades nem contrariedades.

As regras do consumo excessivo e da satisfação imediata como proposta de felicidade acabam sendo ensinadas às crianças, que não se contentam mais com presentes simples e em datas específicas, ou com brinquedos construídos por elas, na interação com os pais. Muitas delas passam a exigir que seus pais as atendam e comprem o brinquedo, a roupa, o sapato, o smartphone, o videogame da moda. E muitas dessas crianças são atendidas constantemente…

Aproveito para brincar com as palavras: “se I pad e I ganha, então I pensa que I pod!”. E se podem tudo, ficam intolerantes à ansiedade de querer e não ter ou não conseguir. Não só para o aspecto material, como também, podem generalizar (e generalizam!) essa intolerância para outros contextos da vida: dificuldade em dividir atenção; recusa em emprestar o brinquedo ou em ir à casa da vovó onde não tem internet; intolerância em ouvir quando o outro está falando; recusa em comer alimentos saudáveis; dificuldade de engajar-se em situações difíceis e que demandam esforço, como escola, esporte, trabalho, relacionamento a dois; dificuldade para abster-se de comportamentos inadequados, mas que geram prazer imediato; dificuldade em obedecer às regras e normas sociais existentes e principalmente, desrespeito com a figura do outro, até mesmo com a figura dos pais: àqueles que se desdobraram para atendê-los!

Muitas destas crianças aprendem que satisfação e felicidade vêm sem grandes esforços. Assim, crescem infelizes, sentindo-se traídas e injustiçadas quando a vida se apresenta com restrições. Quando percebem que felicidade é conquista individual e diária e que isso, exige esforço, disciplina, trabalho, respeito ao outro. Exige abrir mão de algumas coisas em prol de outras. Exige saber que para algumas coisas e conquistas acontecerem, é preciso esperar muito tempo e se empenhar muito até lá! Exige de nós, aquilo que temos evitado, com tanta frequência: que deixemos as crianças e os adolescentes enfrentar as tais situações aversivas e que se frustrem, vez ou outra!

Dados de pesquisas nos mostram que muitos se tornam adultos com SÉRIAS dificuldades de relacionamentos, a partir do momento em que o outro na relação (amigos, amores, vizinhos, colegas de trabalho, pais) não os satisfazem em tudo ou de imediato. Tudo vai bem até que o outro se oponha, contradiga, não aceite suas características ou seu jeito de viver. São adultos que se zangam e rebelam-se quando descobrem que “no meio do caminho tinha uma pedra” e que tal pedra não será retirada por alguém para que eles passem pelo caminho livremente! E o pior de tudo: eles não aprenderam a retirar essa pedra do meio do caminho, adequadamente!

Nestes casos, a intolerância pode gerar emoções intensas (raiva, ira, ódio) e diante delas, muitos adultos, por não conseguirem as controlar, acabam adoecendo e se comportando, para com o outro, com agressividade (verbal, física, psicológica) sem capacidade para pensar em alternativas e consequências dos seus atos violentos e desrespeitosos para com as pessoas. Tendem a acreditar que estão sempre certos e que o mundo é que é um lugar cruel, na medida em que ele barra/impede com que seus objetivos sejam alcançados. Vários transtornos de personalidade, transtornos depressivos e de ansiedade, uso e abuso de substâncias químicas podem ser frutos, dentre outras variáveis, das tais tolerâncias não aprendidas.

       Precisamos pensar sobre o tema, considerando que isso é uma realidade à nossa volta: estamos vivendo em meio às várias intolerâncias, que além de tudo, agora são virtuais! Precisamos rever nossos comportamentos! Precisamos amar muito nossos filhos, mas dando-lhes noções adequadas de limite. Falar “não” e permitir que as crianças sejam frustradas, também são grandes formas de amá-las e educá-las para uma vida mais feliz.

Minha professora tinha razão! Rsrs

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